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Revista Interdiciplinar do Núcleo
de Pesquisa - CUBT/UFPAfgfhghhg |
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| Memória de Ofício: o batalho em Abaetetuba)
Introdução A idéia deste artigo é a de relatar uma das atividades desenvolvidas durante a implantação do Núcleo de Pesquisa do Campus do Baixo Tocantins procurando mostrar as várias nuances de um estudo inicial feito pelos alunos pesquisadores: o estudo do ofício do batalho. A aproximação junto aos batalhadores, apesar de algumas exceções, a princípio causou estranheza, o que se revela na fala de um dos batalhadores:
As desconfianças foram muitas, alguns acreditavam que o trabalho tinha relação com algum partido político, além disto, havia uma certa resistência ao gravador. Percebeu-se que era necessário mostrar a pesquisa realizada para a comunidade. Foi assim que foram fotografados os vários pontos de batalho e seus batalhadores para exposição na praça da matriz do município durante um evento da UFPa , buscando obter maior credibilidade por parte dos informantes. Esta atividade tem como objetivo revisitar a memória da cidade de Abaetetuba através do olhar, da lembrança e da voz dos batalhadores. No esforço de poder construir e registrar várias perspectivas sobre o município é fundamental, na construção de uma memória coletiva, asseverar o direito de lembrar dos mais diferentes agentes sociais. Pois, não se pode compreender a memória da sociedade sem percebê-la na dinâmica das tensões de poder entre variados grupos e classes sociais. A memória se configura em elemento essencial dentro do que chamamos de identidade, ou identidades, sejam elas individuais ou coletivas; cuja busca é uma das atividades fundamentais do indivíduo nas sociedades de hoje. Como bem sintetiza Ecléa Bosi, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais , é preciso mergulhar na memória para se saber quem é. Então, para se conhecer a dinâmica social de Abaetetuba se faz fundamental uma aproximação com a memória dos mais diferentes atores sociais. Outro ponto deve ser ressaltado: lembrar não é reviver, mas é refazer, reconstruir e repensar com idéias de hoje as experiências do passado. Assim, trabalhar com a memória dos batalhadores do município é reconstruir o passado da cidade, uma reconstrução marcada pelas especificidades de gênero, de geração, e da própria profissão que ensinou a esses homens a enxergarem a cidade a partir do selim de suas bicicletas. Assim, o Núcleo de Pesquisa, procurando garantir e valorizar a memória daqueles atores sociais que pouco são ouvidos, busca registrar e discutir as memórias de personagens que vivem a margem da economia formal, do mundo dos letrados e dos direitos políticos institucionais. Como parte integrante desse projeto de valorização das memórias marginais, procuro-se trazer alguns taxiclistas para lembrarem com a comunidade acadêmica um pouco da dinâmica da história da cidade. |
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ORIGEM DO OFÍCIO Situada às margens do rio Maratauíra, ao nordeste do estado do Pará, Abaetetuba (do tupi-guarani, terra de homens fortes e valentes), limita-se com os municípios de Barcarena, Igarapé-Miri, Mojú e Limoeiro do Ajuru . Com uma população de aproximadamente 119.072 habitantes , Abaetetuba tem diversos traços culturais singulares, entre os quais destaca-se o artesanato de miriti, construção naval e o batalho, objeto de estudo do presente trabalho. O que salta aos olhos logo que se chega a Abaetetuba é o grande número de bicicletas trafegando em grande número pelas ruas deste município. O visitante mais atento logo perceberá nas paradas de ônibus, nas esquinas ou nas praças grupos de homens reunidos, com camisas padronizadas, verdes, vermelhas ou amarelas conforme o “ponto”, cada um com sua bicicleta, oferecendo seus serviços, interpelando o visitante – “Ei, Ei, patrão... um real a deixada” . É assim que circulam pelo município os batalhadores, responsáveis pelo transporte de pessoas e cargas de todo tipo. A figura peculiar do batalhador desperta o interesse, pois nos municípios vizinhos este tipo de atividade não existe. Então como surgiu o Batalho ? Os relatos dos batalhadores entrevistados nos revelam que este ofício
surgiu por volta dos anos setenta com o fim das antigas agências
de bicicletas. Para entendermos o surgimento e a expansão do batalho
em Abaetetuba faz-se necessário examinarmos a trajetória
da economia da cidade, que apresenta vários ciclos.
Com baixa escolaridade e frente à estagnação da oferta de empregos formais e à precariedade dos sistemas de transportes na cidade, fez-se necessário o surgimento de alternativas. Neste contexto, no início da década de setenta, é que surgem as agências de bicicletas e, posteriormente, o batalhador.
Nas primeiras agências, as pessoas alugavam as bicicletas pelo período de uma hora. Quando a devolução acontecia antes de completar o prazo acordado, os usuários solicitavam ao dono da agência que alguém os levasse até suas respectivas casas – a título de compensação. Este transporte da agência até a casa do cliente era conhecido como “deixada”. O aluguel de bicicletas na época era bastante rentável já que havia poucas bicicletas circulando na cidade. Pagavam-se os aluguéis por hora e o locador deixava um documento, geralmente a carteira de identidade como prova de que devolveria a bicicleta. Muitas vezes se alugava a bicicleta para se passear pela cidade, como se pode no relato de um batalhador que afirma estar no batalho desde 1971: |
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A “dexada” nasceu do momento em que retornando para devolução da bicicleta o cliente pedia para ser levado até a sua casa, esta função era destinada aos moleques que ficavam na agência transportando cargas, pois muitas vezes as pessoas queriam apenas transportar mercadorias do centro comercial para a periferia da cidade. Hoje a “deixada” corresponde ao percurso feito com o passageiro:
Outro aspecto que chama a atenção é a relação dos batalhadores com o trabalho, observou-se que muitas vezes o batalhador não vem trabalhar a tarde por que “_ O movimento foi bom de manhã... já ganhemo o da bóia...“ , em outros momentos se pode constatar os batalhadores passando o passageiro para o colega “_ É que este um ainda não fez nada hoje”. Quando pensamos na lógica do capitalismo que nos impele a competição e a ganhar sempre mais, estes homens nos dão uma lição: parecem trabalhar apenas para ganhar seu quinhão a cada dia e são solidários entre si. Com base no estudo se pode dizer que a batalha foi se expandindo em função do declínio de ciclos econômicos na região, dos quais citamos O ciclo dos engenhos, que corresponde ao momento de grande plantio de cana e fabricação de cachaça, sendo que a cidade ficou muita conhecida pela exportação da cachaça azul. A decadência dos engenhos empurrou o homem do campo para a zona urbana. Mediante a estagnação do mercado de trabalho formal e o baixo grau de escolaridade, faz-se necessário buscar alternativas de sobrevivência. É neste contexto que surge o batalho.
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| Conforme os dados que obtidos nas observações e entrevistas se pode afirmar que este é o ofício para aqueles a quem não resta outra opção, é a solução para os desempregados. Em sua maioria os entrevistados afirmaram que foi por este motivo que entraram neste ofício. Como podemos perceber nesta fala:
Muitos já trabalharam empregados como pedreiros ou marceneiros em firmas nos municípios vizinhos. Mas a pouca ou nenhuma escolaridade impede a sua recolocação no mercado de trabalho que se tornou mais exigente:
Os batalhadores são os excluídos da escola e do mercado do trabalho, seguem equilibrando sobre as rodas da bicicleta não só passageiros e cargas, mas também os parcos recursos para a sobrevivência da família. Considerações Finais Reafirma-se a posição a respeito da importância
de se resgatar através da pesquisa a memória de ofício
dos batalhadores no município de Abaetetuba, haja vista que estes,
desde o surgimento do batalho em meados da década de 70 do século
XX, vêm se tornando figuras importantes e integrantes do cotidiano
da cidade. Essa atividade vem crescendo pois os batalhadores sem nenhuma
alternativa de trabalho, procuram o batalho como fonte de renda. Sabendo
disso buscou-se através do batalho a compreensão dos aspectos
econômicos,culturais, sociais da cidade, onde o batalho se apresenta
como uma solução para o desemprego. Logo, a memória
de ofício se tornou um instrumento imprescindível para esse
resgate, pois a memória de ofício nos possibilita a reconciliação
com a nossa cultura e devolve, ao sujeito pesquisado , uma descrição
de forma escrita e ordenada que fará com que este tenha possa ter
uma nova visão do seu trabalho e da sua inserção
na sociedade onde vive. Bibliografia AMADO, Janaína. FERREIRA, Marieta de Moraes, org. p/. Usos e abusos da História Oral, Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996. BOSI, Ecléa. MEMÓRIA e SOCIEDADE: lembranças de
velhos. S.Paulo: T.A. Queiroz, 1979. PERREIRA, Lígia Maria Leite. Algumas reflexões sobre histórias de vida biografias e autobiografias. HISTÓRIA ORAL - Revista da Associação Brasileira de História Oral, nº 3, junho de 2000. VON SIMSON Olga Rodrigues de Moraes. Memória, Cultura e Poder na Sociedade do Esquecimento. In: Luciano Mendes de Faria Filho (org.). Arquivos Fontes e Novas Tecnologias: questões para a história da Educação. Campinas -SP: Autores Associados, 2002.
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