Revista Interdiciplinar do Núcleo de Pesquisa - CUBT/UFPAfgfhghhg

Memória de Ofício: o batalho em Abaetetuba)


Hiléia Lúcia Gama da SILVA,
João Rosemildo da S. RODRIGUES
Kézia Sueli Ferreira de ALMEIDA
Lindalva Soares das CHAGAS
Roni Macedo CORDEIRO
(Alunos pesquisadores do NPCUBT)

 

Resumo: O Núcleo de Pesquisa do Campus Universitário do Baixo Tocantins apresenta como trabalho inicial o estudo de um dos mais singulares ofícios abaetetubenses: o batalho. Buscando registrar suas origens na dinâmica da cidade e as perspectivas emergentes .

Introdução

A idéia deste artigo é a de relatar uma das atividades desenvolvidas durante a implantação do Núcleo de Pesquisa do Campus do Baixo Tocantins procurando mostrar as várias nuances de um estudo inicial feito pelos alunos pesquisadores: o estudo do ofício do batalho.

A aproximação junto aos batalhadores, apesar de algumas exceções, a princípio causou estranheza, o que se revela na fala de um dos batalhadores:

 

Há muito anos que trabalho aqui, deixando ... seja aluno, seja professor, doutor eu carrego, e num veio ninguém daí saber da gente. O que interessa p’ra universidade saber da minha história?. (A. M.)

As desconfianças foram muitas, alguns acreditavam que o trabalho tinha relação com algum partido político, além disto, havia uma certa resistência ao gravador. Percebeu-se que era necessário mostrar a pesquisa realizada para a comunidade. Foi assim que foram fotografados os vários pontos de batalho e seus batalhadores para exposição na praça da matriz do município durante um evento da UFPa , buscando obter maior credibilidade por parte dos informantes.

Esta atividade tem como objetivo revisitar a memória da cidade de Abaetetuba através do olhar, da lembrança e da voz dos batalhadores. No esforço de poder construir e registrar várias perspectivas sobre o município é fundamental, na construção de uma memória coletiva, asseverar o direito de lembrar dos mais diferentes agentes sociais. Pois, não se pode compreender a memória da sociedade sem percebê-la na dinâmica das tensões de poder entre variados grupos e classes sociais. A memória se configura em elemento essencial dentro do que chamamos de identidade, ou identidades, sejam elas individuais ou coletivas; cuja busca é uma das atividades fundamentais do indivíduo nas sociedades de hoje. Como bem sintetiza Ecléa Bosi, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais , é preciso mergulhar na memória para se saber quem é. Então, para se conhecer a dinâmica social de Abaetetuba se faz fundamental uma aproximação com a memória dos mais diferentes atores sociais.

Outro ponto deve ser ressaltado: lembrar não é reviver, mas é refazer, reconstruir e repensar com idéias de hoje as experiências do passado. Assim, trabalhar com a memória dos batalhadores do município é reconstruir o passado da cidade, uma reconstrução marcada pelas especificidades de gênero, de geração, e da própria profissão que ensinou a esses homens a enxergarem a cidade a partir do selim de suas bicicletas.

Assim, o Núcleo de Pesquisa, procurando garantir e valorizar a memória daqueles atores sociais que pouco são ouvidos, busca registrar e discutir as memórias de personagens que vivem a margem da economia formal, do mundo dos letrados e dos direitos políticos institucionais. Como parte integrante desse projeto de valorização das memórias marginais, procuro-se trazer alguns taxiclistas para lembrarem com a comunidade acadêmica um pouco da dinâmica da história da cidade.

ORIGEM DO OFÍCIO

Situada às margens do rio Maratauíra, ao nordeste do estado do Pará, Abaetetuba (do tupi-guarani, terra de homens fortes e valentes), limita-se com os municípios de Barcarena, Igarapé-Miri, Mojú e Limoeiro do Ajuru . Com uma população de aproximadamente 119.072 habitantes , Abaetetuba tem diversos traços culturais singulares, entre os quais destaca-se o artesanato de miriti, construção naval e o batalho, objeto de estudo do presente trabalho.

O que salta aos olhos logo que se chega a Abaetetuba é o grande número de bicicletas trafegando em grande número pelas ruas deste município. O visitante mais atento logo perceberá nas paradas de ônibus, nas esquinas ou nas praças grupos de homens reunidos, com camisas padronizadas, verdes, vermelhas ou amarelas conforme o “ponto”, cada um com sua bicicleta, oferecendo seus serviços, interpelando o visitante – “Ei, Ei, patrão... um real a deixada” . É assim que circulam pelo município os batalhadores, responsáveis pelo transporte de pessoas e cargas de todo tipo. A figura peculiar do batalhador desperta o interesse, pois nos municípios vizinhos este tipo de atividade não existe. Então como surgiu o Batalho ?

Os relatos dos batalhadores entrevistados nos revelam que este ofício surgiu por volta dos anos setenta com o fim das antigas agências de bicicletas. Para entendermos o surgimento e a expansão do batalho em Abaetetuba faz-se necessário examinarmos a trajetória da economia da cidade, que apresenta vários ciclos.
Até meados do século passado, o cultivo da cana-de-açúcar figurava entre os principais suportes da economia abaetetubense, subsidiando a produção da aguardente, o que rendeu à cidade a alcunha de “Terra da Cachaça”. No entanto, com a diminuição das exportações e a vinda de bebidas do Centro Sul (ocasionando o aumento da concorrência) fez com que tal atividade entrasse em declínio, forçando o deslocamento de centenas de trabalhadores para o centro urbano. O problema da evasão escolar marca a vidas destes homens que cedo deixaram a escola para trabalhar :

 

Ah! Eu não estudei....esses mutos ano... pra lhe dizê a franqueza eu estudei duas página da cartilha do abc só, porque eu não tinha as condição... (J.N.P)

Com baixa escolaridade e frente à estagnação da oferta de empregos formais e à precariedade dos sistemas de transportes na cidade, fez-se necessário o surgimento de alternativas. Neste contexto, no início da década de setenta, é que surgem as agências de bicicletas e, posteriormente, o batalhador.

 

Na época só existia agência de bicicleta, era lá no comércio, né?...Acho que [éramos] os primeiros, onde a gente foi eu com o Pedro,(...) É em frente do mercado de carne tinha umas bicicletas por ali assim, .... Mas aí depois surgiram umas três agências, ali no ... , ali onde é ... o mercado Vitória, o Figueiredo né? (...) Na saída pela frente na D.Pedro nós tínhamos três agencias de bicicleta...Nós não, eu entrei como empregado lá, né? Inclusive do Ari, o pessoal conhece como o Repuxa, aqui em Abaetetuba, ele e o irmão dele, ele foi um dos primeiros a ter essa agencia, ele mais dois senhores que tinham agencias de bicicleta.(A. B. S.)

Nas primeiras agências, as pessoas alugavam as bicicletas pelo período de uma hora. Quando a devolução acontecia antes de completar o prazo acordado, os usuários solicitavam ao dono da agência que alguém os levasse até suas respectivas casas – a título de compensação. Este transporte da agência até a casa do cliente era conhecido como “deixada”. O aluguel de bicicletas na época era bastante rentável já que havia poucas bicicletas circulando na cidade.

Pagavam-se os aluguéis por hora e o locador deixava um documento, geralmente a carteira de identidade como prova de que devolveria a bicicleta. Muitas vezes se alugava a bicicleta para se passear pela cidade, como se pode no relato de um batalhador que afirma estar no batalho desde 1971:

 

 

As pessoas chegavam lá e alugavam para ir passear na cidade, fazer uma viagem né? E na época .... funcionava essas boates em Abaetetuba, as pessoas alugavam bicicletas e devolviam de manhã, só para passear na cidade(P.G.F.)

A “dexada” nasceu do momento em que retornando para devolução da bicicleta o cliente pedia para ser levado até a sua casa, esta função era destinada aos moleques que ficavam na agência transportando cargas, pois muitas vezes as pessoas queriam apenas transportar mercadorias do centro comercial para a periferia da cidade. Hoje a “deixada” corresponde ao percurso feito com o passageiro:

 

...e essa deixada,deixada, deixada mas conhecida como deixada porque a pessoa andava naquela época, digamos assim 45 minutos numa bicicleta,aí chegava, em vez de, p’ra completar uma hora, -Ah! Me deixa lá em casa, aí a pessoa já, o moleque, no caso eu que trabalhava com o patrão lá, já era cumprimentado a deixar o cara na casa dele, para completar aquele horário, para ele pagar a hora certa de bicicleta, não existia essa deixada propriamente dita agora como existe hoje nos pontos né?(A . B. S.)

Através das informações é possível perceber que surgem primeiro as agencias, depois a “deixada” , mas a palavra “batalho” para designar o ofício surge por volta dos anos 80 com a implantação de fábricas no município vizinho:
 

Olha a batalha, ela não existia , na época que comecei a trabalhar com bicicleta era só aluguel de bicicleta, só existia, não se chamava batalha, chamava-se deixada , onde se mandava compras, mas só em dois pontos que se mandava as compras , no Raposo e no Cruzeiro , e já o nosso era só p’ra aluguel de bicicleta,mas no decorrer do tempo, não foi, a partir dos anos oitenta surgiu a batalha era justamente quando chegavam os peões do Conde , aí pegava para deixar na casa o passageiro , aí se tornou-se a batalha.(P.G.F.)
Eles trabalhavam na obra, eram os pedreiros , carpinteiros , eles vinham de caminhão aí desciam lá na praça, e aí.. eles , eles e que botaram o apelido de batalhador ...(P.G.F.)

Outro aspecto que chama a atenção é a relação dos batalhadores com o trabalho, observou-se que muitas vezes o batalhador não vem trabalhar a tarde por que “_ O movimento foi bom de manhã... já ganhemo o da bóia...“ , em outros momentos se pode constatar os batalhadores passando o passageiro para o colega “_ É que este um ainda não fez nada hoje”. Quando pensamos na lógica do capitalismo que nos impele a competição e a ganhar sempre mais, estes homens nos dão uma lição: parecem trabalhar apenas para ganhar seu quinhão a cada dia e são solidários entre si.

Com base no estudo se pode dizer que a batalha foi se expandindo em função do declínio de ciclos econômicos na região, dos quais citamos O ciclo dos engenhos, que corresponde ao momento de grande plantio de cana e fabricação de cachaça, sendo que a cidade ficou muita conhecida pela exportação da cachaça azul. A decadência dos engenhos empurrou o homem do campo para a zona urbana. Mediante a estagnação do mercado de trabalho formal e o baixo grau de escolaridade, faz-se necessário buscar alternativas de sobrevivência. É neste contexto que surge o batalho.

 

Todo o, os donos de engenho fecharam as portas, aí a gente se tornou um pouco meio acuado, veio embora pra cá pra abaetetuba, trazer os filhos também pra se educar mais uma pouco né ... aí a gente não teve coma, primeiro emprego assim a gente, surgiu negócio de batalho de bicicleta e fiquemos no batalho de bicicleta e fiquemos no batalho de bicicleta, comecemos trabalhar numa firma lá no Conde né!Aí fracassou de novo aí a gente tornou voltar pro batalho de bicicleta e tamos aí no batalho.(M.S.G.)

 

Conforme os dados que obtidos nas observações e entrevistas se pode afirmar que este é o ofício para aqueles a quem não resta outra opção, é a solução para os desempregados. Em sua maioria os entrevistados afirmaram que foi por este motivo que entraram neste ofício. Como podemos perceber nesta fala:

 

“Olha ... o que me levou a esse trabalho de batalho na realidade foi devido eu ficar desempregado ... Eu trabalhei uns dias empregado , depois ...sai da firma e não comsegui me fichar”(M.M.)

Muitos já trabalharam empregados como pedreiros ou marceneiros em firmas nos municípios vizinhos. Mas a pouca ou nenhuma escolaridade impede a sua recolocação no mercado de trabalho que se tornou mais exigente:

 

A gente corre atrás de emprego mas é muita formalidade pra fichar . Ai a gente fica nessa . Espera , né com que venha ... assim um objetivo pra gente fichar pra poder mudar o trabalho , né , do batalho ... pra firma (M.M.)

Os batalhadores são os excluídos da escola e do mercado do trabalho, seguem equilibrando sobre as rodas da bicicleta não só passageiros e cargas, mas também os parcos recursos para a sobrevivência da família.

Considerações Finais

Reafirma-se a posição a respeito da importância de se resgatar através da pesquisa a memória de ofício dos batalhadores no município de Abaetetuba, haja vista que estes, desde o surgimento do batalho em meados da década de 70 do século XX, vêm se tornando figuras importantes e integrantes do cotidiano da cidade. Essa atividade vem crescendo pois os batalhadores sem nenhuma alternativa de trabalho, procuram o batalho como fonte de renda. Sabendo disso buscou-se através do batalho a compreensão dos aspectos econômicos,culturais, sociais da cidade, onde o batalho se apresenta como uma solução para o desemprego. Logo, a memória de ofício se tornou um instrumento imprescindível para esse resgate, pois a memória de ofício nos possibilita a reconciliação com a nossa cultura e devolve, ao sujeito pesquisado , uma descrição de forma escrita e ordenada que fará com que este tenha possa ter uma nova visão do seu trabalho e da sua inserção na sociedade onde vive.
Além disto, o contato com o “Universo do Batalho” possibilitou a melhor compreensão do cotidiano do município. Os relatos dos batalhadores podem ser um dos principais guias do nosso olhar sobre o cotidiano e a história do município de Abaetetuba. Através das rodas dessas bicicletas, sentados na garupa forrada e com os pés sobre o “porta-pé”, dispostos para um maior conforto do freguês, pode-se revisitar a história de Abaeté, fazer emergir dramas e tramas de uma cidade espremida entre o rio e a necessidade.

Bibliografia

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