Revista Interdiciplinar do Núcleo de Pesquisa - CUBT/UFPAfgfhghhghg

A pesquisa teórica nas investigações acadêmicas: questões teóricas e metodológicas
Joyce Otânia Seixas RIBEIRO

(Mestre em Educação, Professora do Campus Universitário do Baixo Tocantins - UFPA)

 

Resumo: O estudo objetiva mostrar a trilha metodológica da pesquisa que resultou na dissertação de mestrado intitulada Teorização Curricular Crítica e Pós-modernismo: elementos para o currículo como política cultural. A partir das inquietações iniciais que desenharam o problema da pesquisa, este artigo busca tecer as relações entre problema-decisão metodológica. Visa, sobretudo, evidenciar a relevância da pesquisa exploratória para um processo de investigação, bem como seus aspectos teórico-metodológicos.

Considerações Iniciais
Para discutir os aspectos metodológicos da pesquisa realizada, é necessário partir de uma retomada, ainda que parcial, das inquietações que deram origem ao problema de investigação. Sem a pretensão de retomar exaustivamente a questão, tento tecer a relação entre o problema de pesquisa e a decisão metodológica, para, em seguida, tratar dos aspectos teóricos referentes à tipologia da pesquisa, neste caso, a pesquisa exploratória, bem como os procedimentos de coleta de dados a ela inerentes.

1. As inquietações primeiras
A dissertação de mestrado intitulada Teorização Curricular crítica e Pós-modernismo: elementos para o currículo como política cultural é resultado de um longo processo de construção permeado de inquietações. Insatisfeita com o projeto de investigação inicial propus-me a reelaborá-lo. E assim foi. Neste processo de reconstrução alguns projetos foram contestados devido à ausência de um objeto claramente explicitado, pois ora enfocava o discurso pedagógico, ora a práxis pedagógica, ora a reforma educacional brasileira. Todos os argumentos eram construídos no interior de profundas mudanças, mas algo parecia não se mostrar.

Ao revisar a literatura para a reelaboração do projeto entrei em contato com o debate sobre o pós-modernismo no campo educacional. O termo despertou minha atenção por estar associado a uma crise, a crise da teorização curricular crítica. Este primeiro contato se deu por intermédio da leitura do texto de Moreira e acabou por trazer mais inquietações, perplexidades, para não dizer pânico. Neste momento inicial, o foco de minhas atenções era a compreensão da crise. A revisão da literatura converge para as explicações a seguir. De acordo com Moreira , a diversificação teórica e temática instalada a partir da inclusão de novos aportes (pós-modernismo, pós-estruturalismo, entre outros) gera a crise da teorização curricular crítica na medida em que ainda não trouxe contribuições efetivas para a construção de práticas docentes emancipatórias. O momento é de incertezas, dúvidas, ambigüidades e de uma multiplicidade de caminhos, o que pode vir a acarretar contradições teóricas e práticas. A argumentação de Moreira é de que a teorização curricular crítica se encontra em crise por não conseguir dar respostas efetivas para a melhoria da qualidade do ensino, por possuir um discurso abstrato e por ter questionada a sua utilidade para as reflexões educacionais e curriculares, em razão de sua incapacidade de enfrentar a complexidade do real. Devido a estas "limitações", a teorização curricular crítica vem sendo duramente criticada, sendo questionados os seus princípios, logo, a sua validade.

Apesar das críticas, os/as teóricos/as vinculados/as à tradição crítica têm procurado saídas para a crise e, para tanto, vêm buscando contribuições em outras teorizações, entre as quais aquelas oriundas do próprio pós-modernismo, causador da crise.

2. O Problema
Como afirmei acima, a despeito das severas críticas ao pós-modernismo, educadores e educadoras radicais aproximam-se cada vez mais desta discussão, tentando investigar acerca da existência desse novo ambiente denominado de pós-modernidade e da relevância desta discussão para a avaliação da tradição iluminista no campo curricular. Esta afirmação pode ser comprovada uma vez que recentemente, mais precisamente a partir dos anos 90, parte da comunidade educacional crítica começou a dialogar com alguns elementos do pós-modernismo com o intuito de repensar a relação entre escola, cultura, linguagem e poder.

É difícil vislumbrar onde o pós-modernismo possa convergir com a teorização curricular crítica fundamentada em princípios neomarxistas. O currículo, aqui, é considerado como inserido em um todo social, não sendo admitidas análises descontextualizadas historicamente. O currículo não é inocente e neutro; ao contrário, está imbricado em relações de poder entre a escola e a sociedade, constituindo-se, portanto, de uma dimensão política. O desafio posto para a teorização curricular crítica é subsidiar através da teoria e da prática crítica uma ação transformadora. A dúvida se manifesta no momento em que o diálogo com o pós-modernismo gera a crise, por não trazer contribuições para uma prática docente emancipatória. Apesar de Giroux e McLaren aceitarem o diálogo fica o impasse: como sustentar a desconfiança nas metanarrativas em um campo tradicionalmente prescritivo e orientado preponderantemente por esquemas gerais de pensamento? Como lidar com a idéia de um sujeito múltiplo, descentrado, em um campo orientado pela filosofia da consciência?4 Como admitir a possibilidade de que não há um fim crítico e redentor a seguir em um campo movido pela teleologia de um destino final libertador?

A inquietação, assim, toma corpo em um problema teórico que se delineia a partir das interrogações acima descritas e remetem a algumas questões que se constituíram em motor desta pesquisa, já que não ficou evidente como se equaciona a tensão entre os princípios da teorização curricular crítica e do pós-modernismo. Este estudo, então, foi movido por algumas indagações: o que é o pós-modernismo? Como é efetuado o diálogo da teorização curricular crítica com o pós-modernismo? Quais as possíveis contribuições do pós-modernismo para o campo e a prática curriculares?

Acreditando que professoras e professores precisam participar deste debate, a intenção deste trabalho foi de aproximá-los de temas e categorias provenientes dos novos aportes teóricos que adentram neste campo. Assim, esta pesquisa tentou contribuir para o avanço da ciência, mais especificamente para o conhecimento no campo curricular, através de uma incursão pelo pós-modernismo, um desafio aceito com um misto de coragem e temor. Considerando a importância deste estudo, e a partir das questões postas, assinalo, então, os objetivos desta investigação: a) Incursionar criticamente em algumas concepções do pós-modernismo; b) Examinar alguns elementos do diálogo da teorização curricular crítica com o pós-modernismo; c) Apontar uma possível contribuição do pós-modernismo para o campo e a prática curriculares; d) Analisar o Tema Transversal Pluralidade Cultural dos Parâmetros Curriculares Nacionais a partir das contribuições do pós-modernismo; e) Anunciar as possibilidades de um currículo anti-discriminatório.
Como se pode notar, está claro que o problema da pesquisa constitui-se em um problema teórico, não havendo, portanto, necessidade de contato com a realidade. Resta, então, anunciar a decisão acerca dos procedimentos metodológicos que melhor atendem às exigências desta investigação.

3. A Decisão Metodológica
Nenhuma decisão metodológica é possível de ser tomada a priori, pois a metodologia de pesquisa não possui autonomia a ponto de ser selecionada antes mesmo da formulação do problema a ser investigado. A formulação do problema indica o caminho a ser percorrido para a apreensão do objeto de pesquisa. Dito de outra forma, a decisão metodológica é decorrência do problema formulado.

A pesquisa científica pode ser realizada tanto na realidade como em documentos escritos. Neste caso, o problema a ser investigado possui uma natureza teórico-crítica não demandando, portanto, pesquisa empírica. Assim sendo, a decisão metodológica foi pela pesquisa exploratória.

 

Sem dúvida alguma, muitas pesquisas de natureza qualitativa não precisam apoiar-se na informação estatística. Isto não significa dizer que sejam especulativas. Elas têm um tipo de objetividade e de validade conceitual (...) que contribuem decisivamente para o desenvolvimento do pensamento científico.

Para Trivinõs, os "(...) estudos exploratórios permitem ao investigador aumentar sua experiência em torno de determinado problema", além de contribuir na análise do referencial teórico possibilitando o domínio de uma determinada teoria. É comum imaginar que um estudo exploratório constitui-se em uma tarefa simples de ser cumprida. Contrariamente, uma pesquisa exploratória precisa atentar para os rigores de um trabalho científico

Assim, alguns problemas de pesquisa devido sua especificidade, exigem um procedimento investigativo diferente, sendo que algumas vezes não vão além da documentação e da reflexão. A reflexão assume um papel fundamental em um estudo exploratório, caso contrário a pesquisa pode facilmente transformar-se em compilação. É imperioso assim, proceder a um exaustivo processo de reflexão e crítica.

Diferente da pesquisa bibliográfica que utiliza fontes primárias, a pesquisa exploratória "(...) se utiliza de subsídios, literatura corrente ou obras de autores modernos", ou seja, informações já publicadas a partir das fontes ou mesmo traduções, o que a faz ser denominada de estudo recapitulativo. Sendo parte integrante desta modalidade de investigação, a revisão da literatura pretende colocar o/a investigador/a a par do que já foi pesquisado sobre a temática. Nesta investigação a revisão da literatura é teórica, pois o problema tem sua origem em uma determinada teorização, o pós-modernismo. Cabe assim, analisar as propriedades da teoria de interesse, buscando a apropriação de suas categorias fundamentais. O material relevante para o desenvolvimento desta investigação foi localizado em livros, revistas científicas, teses e dissertações, bem como nas publicações da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação - ANPEd. Localizado o material essencial necessário para o estudo, procedi a uma seleção com o intuito de definir o que realmente era importante de ser relido. Após esta seleção, a releitura do material foi efetuada, para em seguida partir para a documentação.

Existem várias formas de documentação, mas a preferência foi pela documentação bibliográfica que é realizada a partir das fontes sobre a temática sendo as informações anotadas em fichas de documentação. As referidas fichas disponibilizam os elementos relevantes sobre o assunto, organizados em um acervo que constitui o suporte da pesquisa, facilitando a busca e o manuseio das informações obtidas. Como esta é uma investigação teórico-crítica a ser realizada através da documentação bibliográfica, o referencial teórico depende "(...) da documentação e da crítica à documentação apurada". A revisão crítica de uma teorização é um aspecto de essencial importância para um processo de investigação e produção científica, para a produção de novos saberes que possam ser capazes de contribuir para o desenvolvimento teórico-metodológico de uma determinada área, neste caso, o campo curricular.

Na pesquisa educacional, o conhecimento tem sido atualmente produzido predominantemente a partir da abordagem qualitativa sem, no entanto, desprezar as contribuições de abordagens quantitativas. Neste caso, sendo uma pesquisa qualitativa que busca apreender seu objeto através da análise crítica, considera que o conhecimento "(...) é uma construção que se faz a partir de outros conhecimentos sobre os quais se exercita a apreensão, a crítica e a dúvida". O conhecimento, portanto, é construído após inúmeras tentativas e mais, a partir de vários pontos de vista, de várias teorias. Uma única teoria não é suficiente para que seja possível apreender o objeto, o que pode resultar em um conhecimento distorcido do real. Na teoria marxista, o conhecimento é sempre aproximado, apesar de, naquele momento, refletir a realidade. O conhecimento é fruto do diálogo com conhecimentos acumulados, já produzidos. O/A pesquisador/a constrói seu objeto de pesquisa em consonância com uma determinada construção teórica, de acordo com os princípios e pressupostos de uma dada teoria, e é neste ponto que está o caráter interessado da produção de conhecimento. O conhecimento não é neutro, despojado de interesses, intenções, compromissos éticos e políticos; logo, é sempre produzido comprometidamente. Por se constituir como pesquisa teórica, esta investigação não é neutra, mas construída historicamente, pois "(...) as teorias são historicamente construídas, [e] expressam interesses de classe" , de gênero, de "raça"/etnia, na medida em que resultam de opções relativas à prática social.

Considero, juntamente com Apple , os riscos de um trabalho teórico, e um destes riscos é o de não ser entendido por aqueles/as a quem se destina, ou seja, professores/as e alunos/as, devido ser demasiado abstrato e com linguagem hermética. Reconheço ainda, que a complexidade e a sofisticação teórica do pós-modernismo inclui inúmeros termos e categorias pouco familiares, mas próprios da condição pós-moderna e das muitas teorizações que a compõem, não se constituindo em mero modismo acadêmico, mas parte integrante do debate complexo que se tem estabelecido. O esforço empreendido enquanto docente/pesquisadora é de encarar os rumores desta nova condição, na tentativa de traduzí-los e, assim, contribuir para o debate.

Acredito, assim, que o trabalho teórico-crítico tem sua importância, aliás, toda "(...) prática educativa está carregada de teoria e tem conseqüências políticas". Pode parecer que a teoria esteja distanciada da prática, entretanto, ela traz em seu interior a visão de quem a constrói. A teoria nunca fala por si própria.

Cada descrição está ideologicamente carregada, codificada intertexualmente, a contextos interpretativos maiores. Nada que possa ser observado ou citado é ideologicamente neutro ou inocente. Nenhum pensamento, idéia ou teoria é transparente, autônomo, solto no espaço (...) Idéias são sempre, e necessariamente, ligadas à interesses sociais específicos e codificados, em particular, nas suas relações com o poder e interligadas às configurações do poder/conhecimento .

O engajamento teórico merece ser considerado um esforço urgente e de fundamental importância, se efetuado como parte integrante de um projeto de transformação social. Parte do trabalho de reconceitualização da teoria está sendo realizado no interior deste novo campo, repleto de possibilidades políticas, chamado de condição pós-moderna.
Os resultados desta investigação se encontram distribuídos em três capítulos, onde procuro responder às indagações iniciais.
Considerações finais
Como é possível notar, nenhuma decisão metodológica é definida a priori, pois esta se encontra intimamente ligada à definição do problema de pesquisa. Neste caso, já que o problema constituiu-se como teórico, a decisão metodológica foi pela pesquisa exploratória devido aos motivos acima mencionados. Ressalto que a pesquisa teórica tem sua significância em todo e qualquer processo de investigação e que, o fato de fundamentar-se em teorias, não a exime do rigor científico e nem dilui sua validade acadêmica.

Bibliografia

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