A Escola de Chymica Industrial do Pará

e a modernização do Brasil

no início do Século XX

Prof. Msc. Jorge Ricardo Coutinho Machado

Licenciado em Química, Mestre em Educação em Ciências, professor do Centro de Educação da UFPA, membro do Grupo de Estudos em História das Ciências na Amazônia coordenado pelo Prof. Dr. Jerônimo Alves. Contato: jmachado@ufpa.br


RESUMO

Este artigo constitui-se num levantamento preliminar do que diz a historiografia contemporânea sobre os primórdios da Química no Pará. Parece evidente que essa história tem sido contada principalmente a partir do que produzem pesquisadores em Química e/ou em outras ciências naturais com incursões pela História das Ciências, cuja produção freqüentemente toma como referencial essencial a história eurocêntrica colonizadora, sem ferramentas de análise como o economicismo ou a sociologia da cultura. Buscando uma ruptura, o estudo procura inserir seu objeto principal, os primórdios da química no Pará e a Escola de Chymica Industrial do Pará (1920-1930), nos movimentos nacionais de modernização e internacionalização do início do século XX, pretendendo ser ponto de partida para estudos posteriores. Conclui afirmando que, sobre a química daqueles americanos "sem química", ainda pouco ou quase nada se escreveu e propõe caminhos investigativos para a construção de uma História da Química na Amazônia ou de uma História da Química amazônica .

ABSTRACT

This paper is a preliminary survey about the contemporaneous historiography telling over the chemical evolution in Brazil and Pará. This history has been told principally by chemistry and/or other natural science researchers with incursions in Science History, which production frequently start by eurocentric and colonist history. Searching for a rupture, this study seek to insert your principal object, the early chemistry in Pará and the Escola de Chymica Industrial do Pará (1920-1930) in national movements of modernization and internationalization of 20 century start, intending be a start point to revelation of tendences and motivations. Concludes telling about the chemistry of the americans "without chemistry" about this very little has been written and proposes investigative paths to build a history of chemistry in amazon or an amazonic chemistry history.

PALAVRAS-CHAVE

História da Química, História da Química no Brasil, História das Ciências na Amazônia.

INTRODUÇÃO

Considerada ciência fundamental para o desenvolvimento nacional, pela capacidade que parece ter para alavancar processos de industrialização, a Química vem sendo tradicionalmente (e mundialmente) reconhecida como fator de progresso. Produto da chamada "ciência moderna", herdeira direta das tradições mecanicistas e racionalistas que triunfaram na Europa do século XVII, a Química despontou nos duzentos anos após Lavoisier e Dalton como transformadora do mundo, principalmente por sua capacidade de produzir materiais revolucionários como plásticos e ligas metálicas ou cerâmicas, mas também por corresponder com exatidão aos ideais de desenvolvimento, lucro, progresso e eficiência que pautavam/pautam as ações do triunfante capitalismo transnacional. Nomes como Du Pont, Roche, Bayer, representam hoje não somente a vanguarda da moderna química industrial, mas também lucros para seus acionistas1.

Com o objetivo de modernizar o país no início do século XX, principalmente a partir das lições extraídas da 1ª Guerra Mundial, foram tomadas ações governamentais de modernização e internacionalização que passaram, fundamentalmente, pela promoção de movimentos científicos como a higienização (esta já anterior ao 1º conflito mundial e referenciada principalmente na microbiologia), a eugenia e o desenvolvimento industrial, este último apoiado principalmente no desenvolvimento da Química (ALVES, 2004). Para esse desenvolvimento seria essencial a criação de escolas técnicas de química industrial, processo que se deu em algumas capitais e cidades importantes do Brasil. A modernização do Brasil seguiria, assim, um modelo europeu de desenvolvimento, pautando-se pela ciência européia triunfante.

Sobre algum tipo de "ciência americana"2, ciência "dos que não tem ciência" (CHASSOT, 2000), a historiografia tinha tradicionalmente silenciado. Assim, a história que vinha sendo contada era aquela do ponto de vista da ciência oficial, geralmente considerada como a única forma capaz de oportunizar o conhecimento verdadeiro e definitivo.

As reflexões mais recentes tais como as de Kuhn, Foucault, Bloor e Latour (ALVES, 2004) têm oportunizado uma visão mais crítica e plural do que vem a ser ciência e o desenvolvimento científico, permitindo considerar-se afinal que a ciência não se constitui na forma final e positiva de compreensão da natureza, mas resulta de uma construção cultural, assim como sua internacionalização, sujeita a, segundo Alves (2004), "relações sociais, como as econômicas e de poder".

A respeito dessa internacionalização, processo complexo, conforme Polanco (apud ALVES, 2004),

"o movimento da ciência através do mundo não ocorre simplesmente porque se reconheceria que os conhecimentos científicos superam os demais por revelarem as verdades da natureza, mas, sobretudo, porque se impõe através dos embates sociais."

Para denominar esse processo, Polanco utiliza a expressão mundialização, que segundo ele é

"a disseminação das formas de organização da prática científica, dos valores intelectuais ou morais e das regras técnicas que se impõe para todos como a única maneira de fazer a boa ciência." (Polanco, apud ALVES, 2004)

A existência de uma iniciativa "modernizadora" na Amazônia do início do século XX (o caso da Escola de Chymica Industrial do Pará), parte de um projeto nacional de modernização3, convivendo com a "rain forrest", o "hilterland" e uma Belém ainda na Belle Epòque, é um fato que precisa ser analisado a partir dos referenciais mais recentes para estudos históricos, considerando em sua análise tanto os ideais de modernização e mundialização já mencionados como, inclusive, o silêncio sobre uma possível "Química amazônica" ainda por descobrir. Para esse estudo, no entanto, faz-se necessário um passeio preliminar pela historiografia tradicional, buscando mapear o que ela revela, objetivo deste trabalho de pesquisa.


Com o fim da Primeira Guerra Mundial dois acontecimentos relevantes para o ensino de Química no Brasil foram, segundo Rheinboldt (1994), a criação do ensino profissional técnico e a do ensino científico orientado para a pesquisa nas ciências puras, decorrentes diretamente do surto industrial que originou-se em conseqüência daquele conflito mundial,

"modificando rapidamente a fisionomia da nação, como também os ensinamentos dessa guerra, que mostraram ao mais indiferente leigo a enorme importância da química, ao menos de sua indústria, para a civilização e a defesa das nações, alargaram as maneiras de pensar e abriram os olhos para a necessidade inevitável de indústrias químicas com técnicos especializados" (RHEINBOLDT, 1994)

No final de 1919 ocorreu um movimento no Congresso Nacional em resposta a essa necessidade, com a proposta de criação de diversos cursos de Química Industrial no país. A idéia era aproveitar instituições já existentes, com seus laboratórios e docentes (e eventuais contratações de estrangeiros) para a realização de cursos abreviados, com três anos de duração segundo regulamentação federal, visando atender preferencialmente a indústria nacional. Na lei orçamentária de 1920 (RHEINBOLDT, 1994) aparece uma subvenção de cem contos de réis por curso para serem distribuídos entre as escolas de Chymica Industrial de Belém, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Ouro Preto, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

As especificidades da Escola de Chymica Industrial do Pará no que respeita sua relação com ambiente local (o natural e o cultural) ainda estão precariamente estabelecidas. Sabe-se que a influência da relação do homem local com os materiais da natureza sobre o desenvolvimento da química no Pará é bem evidente, conforme os relatos dos primeiros exploradores que tomaram contato com as culturas naturais desta região. Tal influência evidencia-se hoje nas opções que se fazem para o desenvolvimento de pesquisas em química4 e possíveis abordagens em educação em química5 voltadas principalmente para temáticas loco-regionais6.

Da cultura tecno-química primitiva da Amazônia restaram ainda vários conhecimentos, posteriormente aperfeiçoados à luz da Química européia, sobre óleos vegetais, látex, farinhas, pigmentos, fibras vegetais, medicamentos naturais, perfumes e conservação de alimentos. Do deslumbramento dos europeus com a diversidade de substâncias químicas encontradas no Brasil resultou um contínuo (e às vezes sigiloso) fluxo de materiais. Sabe-se que La Condamine enviou amostras de látex para serem estudadas pela Academia de Ciências da França e o caso das sementes de seringueira contrabandeadas para a Malásia é notório.

A ciência química chegou ao Pará em 1904, como a disciplina química farmacêutica, com a criação da Escola de Farmácia. Nesse sentido, surgia como suporte a uma carreira profissional que exigia conhecimentos químicos mais elaborados, para cujo domínio far-se-ia necessária a devida formação específica. Para a Química aplicada, no entanto, um marco histórico relevante foi a criação da “Escola de Chimica Industrial”, em 1920. O naturalista francês Paul Le Cointe foi o primeiro diretor da escola, que começou a funcionar juntamente com os já mencionados primeiros cursos técnicos de química no Brasil, naquele ano. Esses cursos foram criados pela Lei Federal 3991 de 5 de Janeiro de 1920.

A respeito da fundação da Escola de Chymica Industrial, assim referem-se Lima, Alencar e Barbosa (1985, p.120):

A criação de uma instituição de ensino de química em Belém foi resultado da ação de parlamentares paraenses, na câmara federal, que aproveitaram a decisão do Congresso Nacional de criar diversos cursos de química no País. Foram, assim, criados cursos de química nos institutos técnicos e já existentes nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife. Como em Belém ainda não houvesse uma escola politécnica foi necessário criar uma instituição própria. Paralelamente, a Associação Comercial do Pará, que possuía um Museu Comercial, onde eram exibidos matérias primas regionais e alguns processamentos para obtenção de produtos acabados e semi-acabados, motivou-se pela implantação da instituição de ensino, que, além de ensino, prestaria serviços aos setores públicos e privados.

O primeiro diretor da Escola de Química do Pará já era um grande interessado pela natureza amazônica desde o tempo em que lecionava química na Universidade de Nancy. Publicou vários trabalhos sobre a Amazônia, sendo o mais importante “A Amazônia Brasileira”, publicada em francês em dois volumes no ano de 1922. O terceiro volume dessa obra somente saiu 25 anos depois, já em português, com o subtítulo “Árvores e Plantas Úteis - Indígenas e Aclimatadas”.

O jornal A Província do Pará de 04/02/56 ao publicar o obituário de Paul Le Cointe encerra a matéria jornalística com uma lista das principais obras sobre a Amazônia do, segundo o jornal, “autor de uma obra tão grande e tão universalizada”. São as seguintes:

1. Carta do curso do Amazonas desde o Oceano até Manaus e da Guiana Brasileira (1906).

2. L'Amazonie Brésilienne (1922)

3. A Amazônia Brasileira – Vol III – Árvores e plantas úteis. Col. Brasiliana Vol 251 (1947)

4. O Estado Pará: Terra, água e ar. Cia. Ed. Nacional (1945)

5. A cultura de Cacau na Amazônia. (1ª ed 1919; 2ª ed 1939)

6. Notes sur les graines oleagineuses, les baumes et le resine de la forêt amazonienne (Paris, 1927)

7. Apontamentos para a exploração da Balata e da juta da Amazônia (1923)

8. A valorização da borracha e o processo de coagulação “Cerqueira Pinto” (Pará – 1918)

9. Principais madeiras paraenses (1929)

10. Limites do município de Óbidos – estudo geográfico (1907)

11. Le France en Amazonie. (?)

12. L'élérage en Amazonie (?)

O mesmo jornal menciona ainda outras obras, como artigos sobre “As enchentes anuais do Amazonas e as recentes modificações do seu regime”; “Os animais curiosos da Amazônia”; “História dos macacos amazônicos”; “Os tembés” e “Aplicações do curare radioativo”.

Suas obras compreendiam levantamentos básicos e ocorrência de riqueza naturais, sobretudo quanto à flora, segundo aquele jornal, consideradas importantes em assuntos amazônicos "para químicos, bioquímicos, botânicos, ecólogos, biólogos, farmacêuticos, médicos, perfumistas, tecnólogos de fibras e madeira, geólogos, antropólogos, industriais e estudiosos em geral".

Além de Le Cointe, outros especialistas franceses participaram da Escola de Química, primeiro Charles Paris e Raymond Joannis e depois René Rougier, Georges Bret, Camille Henniet e Andre Callier, e ainda os brasileiros Antônio Marçal e Renato Franco.

A Escola iniciou suas atividades em novembro de 1921, era mantida com verba federal e funcionava num prédio do Museu Comercial da Associação Comercial do Pará, localizado na Praça da República (onde hoje funciona o Núcleo de Artes da UFPa), tendo sido recentemente restaurado com suas linhas originais preservadas.

O curso era realizado em 4 anos, sendo o último ano, complementar aos três anos oficiais, destinado a um trabalho de tese e especialização em indústria, geralmente de interesse amazônico. Eram ministradas as seguintes disciplinas: no primeiro ano - química mineral, química industrial, análise qualitativa, física, matemática e tecnologia amazônica7; no segundo ano - química orgânica, química industrial, química biológica, análise quantitativa e física; no terceiro ano - química industrial, físico-química, mineralogia e desenho linear. No quarto ano suplementar ensinava-se tecnologia industrial, química industrial, uma especialização e havia carga horária para preparação de uma tese de graduação. Com a tese aprovada, o aluno receberia o diploma de químico.

Os alunos tinham aulas teóricas e práticas, sendo estas últimas com um mínimo de vinte horas de laboratório por semana, além de visita a fábricas e trabalhos de campo. A biblioteca era atualizada com literatura científica internacional, com predomínio francês. Sobre aquela biblioteca, A Folha do Norte de 22/11/1970 (pag. 2) menciona como parte do acervo: DICTIONNAIRE DE CHIMIE de Wurtz (Paris, 1892); ENCYCLOPÉDIE CHIMIQUE de M. Frémy (Paris, 1894); TRAITÉ COMPLET D'ANALYSE CHIMIQUE appliqué aux essais industrieles, de Post e Newmann (1919) e os famosos ANNALES DE CHIMIE ANALYTIQUE, Societé des Chimistes Français (1923), obras em francês, língua que, segundo Ben-David, apud Alves (2004), em algum momento representou referência internacional para modernização e internacionalização da ciência.

Até 1929 a escola formou nove químicos. Apesar de todos os trabalhos e de todas as pesquisas realizadas serem de vital importância para o desenvolvimento da Amazônia, a Escola de Química Industrial do Pará foi fechada em 1930, devido à crise econômica ocasionada pela revolução do mesmo ano8. Além dela, a maioria das Escolas de Chymica também foram fechadas, e canceladas as subvenções federais. Mesmo com o fechamento da Escola, seu boletim científico, publicado em 1930, continha 15 trabalhos sobre produtos naturais amazônicos. O Boletim tinha a finalidade de publicar a produção científica da escola e seu segundo número encontrava-se já pronto para ser publicado quando do encerramento das atividades.

A Escola de Química ficou fechada por 25 anos (1930-1955), mas nesse período permaneceu a aspiração pela sua reabertura, principalmente por seus ex-alunos que mantinham vivo o ideal da ciência química na Amazônia, pois julgavam importante que a Amazônia continuasse a ser estudada por químicos, já que a produção científica sobre a região, nessa área, resumia-se até então aos trabalhos de Le Cointe e seu grupo. Entre esses ex-alunos destaca-se a liderança da professora Clara Martins Pandolfo, sempre lembrada como incansável lutadora pela reabertura da Escola e organizadora de movimentos para esse fim (LIMA, ALENCAR, BARBOSA, 1985).

Através dos esforços da superintendência da SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia), da Associação Comercial do Pará e do movimento de ex-alunos, em 1956 com o Decreto Federal 38.876 era autorizada a reabertura e funcionamento da Escola de Química Industrial do Pará. No mesmo ano foi realizado um vestibular e a Escola reiniciou suas atividades. No dia 20 de abril deu-se a aula inaugural, que versou sobre o tema: Química – uma ciência a serviço da humanidade. O diretor à época era o professor João Renato Franco, sob cuja direção a Escola continuou funcionando no mesmo local, onde era mantida provisoriamente com pequenos recursos da Associação Comercial do Pará e auxílio da SPVEA. A maioria dos docentes era constituída por ex-alunos.

A Escola foi reconhecida em 1959 (Decreto Federal 47.340, de 03.11.59), mas o embate maior, agora, era para mantê-la funcionando, pois sem apoio financeiro federal ela poderia talvez encerrar as atividades na agonia da ausência de recursos.

O problema das verbas, aliás, era histórico, uma vez que já na criação dos curso de química industrial em 1919, referindo-se ao custeio das instituições, Freitas Machado (apud RHEINBOLDT, 1994) menciona que

"logo no primeiro ano de vida os embaraços e as deficiências se apresentaram no ensino prático das disciplinas, como as de química, exigentes de longa permanência em laboratórios, devendo servir aos alunos da Escola de Engenharia [no caso de São Paulo] e aos do curso (estes últimos se viam sempre prejudicados). Com raras exceções as próprias escolas não disporiam de laboratórios adequados* e a verba de cem contos não era suficiente para cobrir pagamento de docentes, material de ensino e novas instalações; o aumento posterior da verba a 120 contos não resolveu o problema do orçamento dos cursos."

Mesmo com a criação da Universidade Federal do Pará em 1957, a Escola não foi federalizada, ficando excluída da Universidade, que reunia as faculdades de medicina, farmácia e direito, as faculdades estaduais de engenharia e odontologia, e as faculdades privadas de filosofia e ciências econômicas. Nessa situação, a Escola de Química continuou funcionando graças à ajuda do Governo Estadual, que determinou a encampação da Escola pelo Estado do Pará (Lei Estadual 2173, de 17.01.61), afastando, pelo menos momentaneamente, o risco de uma nova extinção, ainda que mantivesse precariamente a instituição.

Devido à difícil sobrevivência, parecia evidente que a escola precisava ser incorporada à Universidade Federal do Pará, porém, segundo Lima (informação verbal)9, último diretor da Escola, havia resistência da administração da Universidade para que isso acontecesse. Essa resistência devia-se às origens práticas e "industriais" da Escola, o que era compreendido pela administração universitária como incapaz de atribuir a um curso desses o perfil acadêmico necessário para sua incorporação a um ambiente de intelectuais10.

Com a participação de docentes, alunos, movimento estudantil, ex-alunos e políticos (destacando-se o Deputado Ferro Costa), a Escola foi encampada pela UFPA no dia 18 de novembro de 1963 (Lei 4283 de 18.11.63), tendo o mesmo ocorrido com a Escola de Serviço Social, que (pela mesma razão?) também ainda não o havia sido. Tal, no entanto, não foi aceito pela administração da Universidade, que continuou resistindo à incorporação das Escolas e pressionou politicamente o Governo Federal, o que levou o Presidente da República a vetar o projeto de Lei que encampava as duas escolas. O Congresso Nacional, cedendo às pressões do movimento estudantil paraense, rejeitou o veto presidencial, tornando a Escola, agora, Superior de Química11, integrada à Universidade Federal do Pará.

A Escola Superior de Química foi extinta com a restruturação da Universidade em 1969/70, assim como todas as outras escolas e faculdades, sendo então criado o Departamento de Química Básica e Engenharia Química do Centro de Ciências Exatas e Naturais. Após nova restruturação as atividades de química Básica ficaram a cargo do Depto. de Química do Centro de Ciências Exatas e Naturais e as aplicadas a cargo do Depto de Operações e Processos Químicos do Centro Tecnológico.

A criação da UFPA foi resultado de um movimento unificador de faculdades e escolas de Belém, já que o Ensino Superior no Pará data de 1902 (BECKMANN, 1985) com o surgimento da Faculdade de Direito, seguida pelo da Escola de Farmácia (1904). Essas escolas foram criadas no período que passou à história Paraense como “da borracha”, que deu à capital paraense um ar de “Paris na Belle Epoque”, embora o interior do Estado tenha permanecido à míngua12, e a caracterizou como a grande metrópole da Amazônia. Para Beckmann (1985, p.508), no entanto

somente após a quebra da borracha, em 1912, é que viria expandir-se o nosso ensino superior, num evidente contraste econômico-educacional13. Em 1914 fundava-se a Faculdade Livre de Odontologia; a de Agronomia e Veterinária em 1918, e, em 1919, a Faculdade de medicina e Cirurgia do Pará, que chegaria a ocupar lugar de destaque no cenário médico nacional.

Foi somente em 1924, segundo Beckmann (1985), não propriamente em decorrência das Faculdades existentes, mas da iniciativa pessoal de homens ligados à cultura14 oriundos das ciências e do magistério, que se criou a Universidade Livre do Pará. Esta, mais do que propriamente ministrar cursos, propunha-se ser uma aglutinadora de instituições de ensino superior, agindo como instituição cultural. Era, pois, mais uma instituição extensionista do que de ensino e pesquisa e, assim constituída, teve vida curta.

Em 1930 foi fundada a Escola de Engenharia do Pará e voltou-se a falar em Universidade. Em janeiro de 1950 a Faculdade de Medicina foi federalizada e este, para Beckmann (1985), foi o passo decisivo para a constituição de uma Universidade Paraense, que só viria a concretizar-se em julho de 1957 mediante lei sancionada pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Na sua origem estavam as três faculdades (Medicina, Direito e Farmácia), às quais foram acrescidas a Escola de Engenharia e as Faculdades de Odontologia, Filosofia, Ciências e Letras e Ciências Econômicas, Contábeis e Atuariais.

A tardia encampação da Escola de Química do Pará pela Universidade deu-se em 1963, depois de “muitas dificuldades vencidas” (LIMA, ALENCAR e BARBOSA, 1985) e oportunizou o desenvolvimento das atividades de ensino graças principalmente à capacitação docente ocorrida, à implantação de projetos de pesquisa e à atualização curricular do curso de química industrial.


Considerações finais

Um possível delineamento das macro-tendências posteriores à incorporação da Escola de Química do Pará pela UFPA permitir-nos-ia identificar as tendências decenais mais evidentes. A marca dos anos 70 foi a consolidação física dos cursos de Química na UFPA, com construção de laboratórios e salas de aula. Nos anos 80 viu-se a capacitação docente, com professores deslocando-se para o centro-sul do país em busca da pós-graduação. Nos anos 90 assistiu-se à busca pela consolidação de uma pós-graduação em Química na UFPA mediante a oferta regular de vagas para o mestrado em Química com várias linhas de pesquisa orbitando fundamentalmente em torno de produtos naturais amazônicos. Essa, porém, já poderia ser uma outra história...

A trajetória relatada pela historiografia tradicional referindo-se à Escola de Chymica Industrial do Pará parece ser essencialmente o relato da busca por uma "aculturação" aos padrões e modelos internacionais de ciência moderna. Discutir essa trajetória não será, certamente, tempo perdido. A reconstrução dos fatos por si só já é fascinante, e quando acompanhada de reflexões que busquem inserí-los na dinâmica maior dos fatos sociais que engendram e condicionam a "civilização amazônida" representam contribuições de real valor para a construção de uma história (geral e das ciências) na Amazônia. A partir deles, contudo, é possível propormos um conjunto de opções para investigações certamente frutíferas e que lançarão luzes em recantos ainda obscuros do desenvolvimento das ciências nesta região.

As discussões sobre História das Disciplinas Escolares possibilitam a reconstrução da trajetória da Química no Pará ao fazer-se uma disciplina escolar. Essa trajetória é fundamental para as discussões sobre, por exemplo, as relações norte-sul nas construções curriculares (ou as relações Brasil-França durante a primeira fase de existência da Escola de Chymica Industrial) e a "adequação" de materiais instrucionais para o ensino de química na Amazônia. Permitem, ainda buscar-se entender o porque da inexistência, até hoje, de cursos e disciplinas de química "amazônidas", capazes de corresponder à necessidade de uma percepção clara da problemática amazônica em várias das suas dimensões, inclusive a científica. Que conteúdos químicos específicos faziam parte das disciplinas ministradas no curso de químicos da Escola de Chymica Industrial? Por que? São questões relevantes para posteriores investigações.

No aspecto sócio-econômico, quais a relações entre "modernidade" e "atraso" que podem ser estabelecidas a partir da iniciativa de instalação da Escola de Chymica Industrial do Pará? Qual o impacto dessa escola na vida social, econômica e cultural da Belém da "Belle Epòque"? Seu funcionamento teve alguma relevância para a vida local ou representou um enclave progressista em meio à indiferença? Essas questões evidenciam-se quando Alves (2004, pag. 11) destaca que "o anseio pela modernização era um imperativo no Brasil durante a Primeira República".

Na (re)construção de uma "química dos sem química", qual a relação da Escola de Chymica Industrial do Pará com o conhecimento químico tradicional? O Boletim da Escola publicado em 1930 ofereceria alguma informação sobre isso? Será possível a emergência de uma "química periférica" a partir dessas investigações, capaz de oportunizar a elaboração de um amplo inventário de "tecnologias químicas nativas"? Não o sendo, dada a relevância dessas "ciências periféricas" para a construção de uma nova visão sobre o desenvolvimento da ciência na Amazônia, que caminhos poder-se-ia seguir?

São questões que se estabelecem como essenciais para a construção de uma História da Química na Amazônia, capaz de tornar-se, no futuro, um futuro não tão remoto, espera-se, História de uma Química amazônica.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


ALVES, José Jerônimo A. Idéias de Internacionalização da ciência e sua modernização no Brasil da Primeira República. Belém, UFPA, Seminários e Debates Interdisciplinares, 2004.


BECKMANN, Clodoaldo. Apontamentos para a História da Universidade Federal do Pará. In Anais do Simpósio sobre História da Ciência e da Tecnologia no Pará. Tomo I. Belém, UFPA, 1985.


BERGIER, J; PAUWELS, L. O despertar dos mágicos. São Paulo, DIFEL, 1980.


CHASSOT, Attico. Alfabetização científica: questões e desafios para a educação. Ijuí, UNIJUÍ, 2000.


LIMA, Waterloo N.; ALENCAR, Paulo de Tarso S.; BARBOSA, Rui dos Santos. Uma tentativa para Consolidar as Atividades Básicas de Ensino e Pesquisa em Física, Informática, Química e Matemática: a implantação do Centro de Ciências Exatas e Naturais da UFPA. In Anais do Simpósio sobre História da Ciência e da Tecnologia no Pará. Tomo I. Belém, UFPA, 1985.

RHEINBOLDT, Heinrich. A química no Brasil, in AZEVEDO, Fernando (org.) As ciências no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro, UFRJ, 1994.


SANTOS, Lucíola Licínio de C. P. História das disciplinas escolares: perspectivas de análise. Teoria & Educação, 2, 1990.


SANTOS, Roberto. Um século de economia paraense. (1800-1900). Conferência pronunciada na 1o Reunião Amazônica dos Professores de História. Belém, s/d.


SCHNETZLER, R. O professor de Ciências: problemas e tendências de sua formação. in SCHNETZLER, R & ARAGÃO, R. Ensino de Ciências: fundamentos e abordagens. Campinas, CAPES/UNIMEP, 2000


NOTAS

1A ALBRÁS é, em sua essência, uma indústria química. Sua atividade mais fundamental é uma reação química de oxi-redução onde o óxido de alumínio é reduzido a alumínio metálico. Essa reação química está no epicentro de todo um processo que envolve acionistas, meio ambiente, políticas públicas de desenvolvimento e modelos de ocupação econômica da Amazônia. Uma reação química não é tão simples quanto parecia nos bancos de escola...

2Aqui no sentido de ciência autóctone, ou aquela tradicional de povos amazônicos.

3Para Alves (2004), novas instituições foram criadas no Brasil a partir dessas idéias, como a Sociedade Brasileira de Ciências e as oito escolas de Química distribuídas em vários Estados do País, a de Belém sendo uma delas.

4O programa de pós-graduação em química da UFPA, por exemplo, iniciou como essencialmente de química de produtos naturais.

5Recentemente foi desenvolvido um Trabalho de Conclusão de Curso de alunos de Licenciatura em Química visando construir uma abordagem essencialmente amazônida para aulas de química no nível médio.

6Estudos em História das Disciplinas Escolares estabelecem que nesse âmbito uma aproximação entre trabalho histórico e etnográfico e não só desejável, como também necessária, quiçá indispensável. (SANTOS, 1990)

7Quanta falta uma disciplina como esta faz hoje para os estudantes de química paraenses... Para os da área científica e tecnológica, a oportunidade de examinar tecnologias nativas sob a ótica da química moderna. Para os futuros professores de química possibilidade da prática de uma educação química pautada pelas abordagens culturais dos saberes regionais: aulas de química como múltiplas trocas e diálogos interculturais.

8O fechamento se deu por ordem de Getúlio Vargas, quando da instalação da ditadura, ao determinar a suspensão das verbas. As escolas de Química brasileiras que porventura estivessem de alguma forma vinculadas a instituições autônomas sobreviveram. Sem os recursos federais, a Associação Comercial ainda tentou manter a Escola de Chymica Industrial, mas rendeu-se à impossibilidade.

*O esclarecimento da , para o autor, "inadequação" desses laboratórios exige aprofundamento.

9O prof. Dr. Waterloo Napoleão de Lima viveu esse processo e relatou-nos sua compreensão dos fatos durante entrevista no Laboratório de Pesquisa em Química, em Novembro de 2003

10Rheinboldt (1994) usa o termo "ciências desinteressadas" para referir-se às ciências puras, como se em suas motivações não estivessem envolvidos interesses de qualquer natureza...

11A escola à essas altura já denominava-se Escola Superior de Química, o que visava evitar confusão entre o curso superior da Escola e os cursos técnicos de Química Industrial existentes no Brasil.

12SANTOS (s/d), declara textualmente que isso acabou por “concentrar o bem estar e o progresso do vapor, da eletricidade e do telégrafo” nas capitais (Belém e Manaus) deixando o meio rural em precárias condições.

13Fato interessante para refletir-se até que ponto o desenvolvimento econômico, mundialmente considerado como essencial para o desenvolvimento científico, realmente determina esse desenvolvimento.

14Destacam-se Jayme Aben-Athar, Camillo Salgado, João Batista Penna de Carvalho, Oscar de Carvalho, Ignácio Baptista de Moura, e Henrique Américo Santa Rosa, dentre outros (BECKMANN, 1985)

WB01337_.gif (904 bytes) VOLTAR