O Mercado e a Cidade de Belém

 

Um pouco da história do Ver-O-Peso

 

A história do Ver-o-Peso está diretamente ligada à da cidade de Belém do Grão-Pará. Fundada em 1616, num promontório margeado pelo igarapé de nome Piri, que desagua na Baía do Guajará no ponto em que se vislumbra a desembocadura do caudaloso rio Guamá, logo nos primeiros tempos, no século XVII, a aldeia - referida como "cidade do Pará" - cresceu em torno do Forte do Castelo, e do Colégio e Igreja dos Jesuítas, embrião da atual capital.

Vale ressaltar que, nas margens do Piri, se estabeleceu o ponto de chegada e saída dos barcos e navios que penetravam o imenso Amazonas ou se dirigiam ao mar, tendo dali saído embarcações que conduziram personagens ilustres da história do Brasil. Em 1637, Pedro Teixeira, com sua frota, subiu o Amazonas pela primeira vez. Em 1653, o padre Antonio Vieira aportou no Ver-o-Peso, chegando a Belém para suas lides missionárias em defesa da liberdade dos índios. Em 1687, o governador Francisco Coelho de Carvalho teve a iniciativa de endereçar ao rei de Portugal uma representação, pedindo-lhe a concessão do tributo de Ver-o-Peso. Em 1688, uma Provisão-Régia criava o Ver-o-Peso, "por ser conveniente ao serviço de V. Magte. para que se não embarquem sem despacho as drogas que saem daquella Conquista, e se concedeu aos Officiaes da Câmara da ditta Capitania o rendimento do dito Ver-o-Peso para os usos necessarios della e bem público da Cidade".

Criado com objetivos fiscais, foi a partir de então que o porto do Piri entrou para a "economia formal", passando a se chamar o "lugar de ver o peso", nome que a tradição oral há mais de 300 anos soube preservar. Um ano depois, em 1689, desembarcou no Ver-o-Peso, vindo das missões dos Omáguas do alto Amazonas, o padre jesuíta Samuel Fritz, autor da carta geográfica mais completa da Amazônia até o século XVII.

Também ali aportou o cientista Charles Marie de La Condamine, quando veio à Amazônia, em 1749, fazer as primeiras medições da circunferência terrestre. Dali embarcou, em 1783, Alexandre Rodrigues Ferreira para a primeira expedição científica luso-brasileira à Amazônia, que duraria 10 anos e reuniu grande coleção zoológica e etnográfica, além de rica iconografia hoje guardada na Biblioteca Nacional.

Ao longo de todo o século XVIII, o Ver-o-Peso assistiu aos principais eventos e acompanhou as mudanças urbanísticas que a cidade sofria, em seu crescimento para a outra margem do igarapé do Piri. A conformação cultural do Mercado foi sendo impregnada pelas gentes que chegavam: escravos indígenas dos sertões amazônicos dos rios Negro, Japurá, Solimões e Madeira, negros de Angola e Benguela, colonos portugueses vindos de África e da Metrópole, comerciantes de escravos e drogas do sertão, missionários, cientistas e militares. A Língua Geral, ou Nheengatu, ensinada pelos missionários, era falada por todos. No Ver-o-Peso, ainda naquele século, aportaram no Grão-Pará as primeiras mudas de café vindas de Cayena pelas mãos de Francisco de Melo Palheta, as quais, mais tarde, mudariam a economia e a história do Brasil.

Em 1803, no governo do Conde dos Arcos Dom Marcos de Noronha e Brito, o igarapé do Piri foi aterrado para atender aos avanços urbanísticos da Belém que crescia. Todavia, sua antiga foz foi transformada numa doca, tal como existe até hoje, mantendo-se ali as atividades do Ver-o-Peso. Mais tarde, já no final do século XIX, a margem da Baía do Guajará foi aterrada, transformando a paisagem do Ver-o-Peso: saíram os velhos trapiches de madeira, acabou-se a praia e o espaço foi ocupado pelas docas de pedra de lioz.

Ao longo do século XIX, muito da história política, econômica e social de Belém continuou passando pelo Ver-o-Peso. No ano de 1823, em seu porto, ocorreu a tragédia do navio Brigue Palhaço, quando 256 pessoas que eram contra a independência do Brasil, após serem presas pelos agentes do governo em seu porão, foram mortas por asfixia por cal em pó. Em 1835, quando estourou a maior revolução social da região, a Cabanagem, foi ali que os cabanos aportaram antes de cruzar o caminho até o Palácio para assassinar o Governador Lobo de Souza e ocupar o poder.

Durante 151 anos permaneceu nos hábitos do povo e do comércio a prática do recolhimento do imposto do Ver-o-Peso. Concedido por provisão real à Câmara de Belém, esse pagamento era usado nas demais capitanias e no próprio reino. O presidente Bernardo de Souza Franco, por intermédio da Lei nº 22, de 28 de setembro de 1839, extinguiu a repartição do Ver-o-Peso em Belém. Contudo, a lei determinava que o imposto ali recebido passaria a ser arrecadado na Recebedoria Provincial e entregue, todos os meses, ao Procurador da Câmara Municipal.

Foi dali também que se exportaram os primeiros carregamentos de borracha da Amazônia, que mudariam, em plena revolução industrial, a indústria de pneumáticos. As sementes de seringueira levadas para a Malásia – que mais tarde provocariam o colapso da economia do látex – também saíram do Ver-o-Peso. Atraídos pelo dinheiro da borracha, imigrantes sírios, libaneses, italianos e judeus marroquinos incorporaram-se, com seus comércios, à múltipla paisagem humana do Ver-o-Peso.

Em 1855, por ocasião de uma forte chuva ocorrida no dia do Círio, a berlinda que conduzia Nossa Senhora de Nazareth ficou presa na lama em frente ao Ver-o-Peso. Comerciantes do local providenciaram uma corda para viabilizar a retirada da berlinda e dar continuidade à caminhada. Ainda no início do século XX, no auge da época da borracha, a paisagem do Ver-o-Peso sofreu novas mudanças: construção de um mercado pré-fabricado em ferro trazido da Inglaterra na margem da baía; ampliação do antigo Mercado de Carne, situado nas proximidades; ampliação do aterramento da baía e construção do porto pelos ingleses, além de outras construções seguindo um padrão arquitetônico europeu, de estilo eclético e com grande influência art nouveau, sobretudo nos elementos de ferro trabalhado artisticamente.

Nas proximidades do Ver-o-Peso, o casario colonial da margem esquerda do antigo Piri continua emoldurando o conjunto, por trás do antigo Colégio e da Igreja barroca dos Jesuítas, e na lateral do antigo Forte do Castelo, embrião da cidade. No espaço aterrado do igarapé, foram construídas a Praça do Relógio e a Avenida Portugal. Na outra margem, ainda resistem muitos sobrados do século XIX margeando o Mercado e a feira, seguindo até a Igreja e Convento das Mercês, monumento do século XVIII, de autoria do arquiteto italiano Antonio Landi. Os dois monumentos setecentistas, dos Jesuítas e Mercedários, integram os limites do que atualmente os urbanistas de Belém chamam de "Complexo do Ver-o-Peso", espaço significativo para a identidade econômica e cultural da cidade de Belém e de toda a região Norte.

Essa área constituía o antigo centro da cidade, onde se concentravam as principais atividades de comércio e serviços. A expansão da área urbana, com o surgimento de muitos outros bairros, propiciou a criação de novos polos centrais para a vida da cidade. Embora decadente, o velho centro ainda prepondera sobre os demais, atraindo grande número de pessoas que por ali circulam diariamente, seja para trabalhar, fazer a feira, compras, pagamentos ou simplesmente passear. Por intermédio de eixos viários de penetração e do sistema de transportes, o centro histórico e o conjunto do Ver-o-Peso se encontram interligados ao contexto urbano continental.

Nos últimos anos foram realizadas duas grandes reformas no Mercado Ver-o-Peso. A primeira aconteceu em 1985, na administração municipal de Almir Gabriel, quando o Mercado de Ferro, com suas torres, colunas e escadas todas em ferro, forjadas em Londres e Nova York e montadas no local, foi restaurado. Também o Solar da Beira, construção em estilo neoclássico, passou por reformas e foi transformado em restaurante e espaço cultural da cidade. A Praça do Pescador e a feira livre também ganharam melhorias, como também a construção da Praça dos Velames e de barracas padronizadas. Em 1998, foi iniciada uma segunda grande reforma no Ver-o-Peso, sob responsabilidade da Prefeitura de Belém, na gestão de Edmilson Rodrigues, com o objetivo de intervir na feira em âmbito geral, contemplando, assim, aspectos que vão do paisagístico ao que diz respeito à qualificação dos feirantes no atendimento ao público. Essa reforma continuou até o ano de 2002, sendo realizada por etapas.

O complexo do Ver-o-Peso, portanto, constitui-se de um importante patrimônio edificado, situado no centro histórico de Belém, datado dos séculos XVII, XVIII e XIX, uma síntese da conformação arquitetônica da cidade em vários estágios e estilos: edificação militar, barroco jesuítico, arquitetura civil colonial e pós-colonial, estilo neoclássico, estilo eclético e arquitetura industrial. Mas o que faz do Ver-o-Peso um lugar muito especial não é apenas o patrimônio material expresso em sua arquitetura exemplar. Numa tradição bicentenária, todos os anos, em outubro, o cortejo de mais de um milhão de pessoas em homenagem à Virgem de Nazaré tem no Mercado um de seus pontos altos, de vívida demonstração de fé e paixão popular: um "carnaval devoto". Dentro do Mercado de Ferro, um altar dedicado a Nossa Senhora de Nazaré é ponto de passagem obrigatório dos feirantes e frequentadores da feira do Ver-o-Peso.

Fonte: INRC Ver-o-Peso, 2010, Iphan/PA.

O tombamento do Ver-O-Peso

 

O Conjunto Arquitetônico e Paisagístico Ver-o-Peso e áreas adjacentes, incluindo a Praça Pedro Segundo, o Boulevard Castilhos França, o Mercado de Carne e o Mercado de Peixe, é um bem tombado pelo Iphan com inscrição em três dos quatro livros criados pelo decreto nº 25, de 30 de novembro de 1937 (que conceitua e organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional), a saber: Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico (inscrição de número 69, fls 16); Livro de Tombo Histórico (inscrição número 460, fls 77) e Livro de Tombo das Belas Artes, sob a inscrição de número 525 (fls 96).

O instrumento legal correspondente a tais inscrições é a Notificação nº 1121, assinada pelo então Diretor geral do Iphan em 09 de novembro de 1977, que, com base no Processo 812–T-69, notifica a decisão do órgão pelo tombamento ex-ofício do perímetro referido, de propriedade da Prefeitura de Belém, ao então Prefeito de Belém. Dez anos depois foi proclamada uma certidão de tombamento, assinada no Rio de Janeiro em 28 de outubro de 1987 pelo chefe do Arquivo da Coordenadoria de Registro e Documentação, revisada pelo secretário do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, certificando que o tombamento encontrava-se devidamente inscrito nos respectivos livros de tombo já mencionados.

Importante destacar que a mesma área é tombada pelo Município de Belém, sob a denominação de Centro Histórico de Belém.  Conforme Anexo I da Lei Ordinária Nº 7.709, de 18 de maio de 1994, o Centro Histórico de Belém, tombado pela Lei Orgânica, de 30 de março de 1990, em seu artigo 228, parágrafo 2º, compreende, conforme a Lei de Desenvolvimento Urbano – Lei 7.401, de 29 de janeiro de 1988 –, a área envolvida pelo poligonal que tem início na interseção da Avenida Marechal Hermes com Avenida Assis de Vasconcelos; segue por esta até a interseção com a Rua Gama Abreu; segue por esta até sua interseção com a Avenida Almirante Tamandaré; segue por esta até o ponto de coordenadas 777.54mE e 9.838.245mN, nas margens da Baía do Guajará; dobra à direita e segue, continuando às margens da Baía do Guajará até o ponto de coordenadas 778.940mE e 9.841.245mN, localizados na foz do igarapé sem denominação; sobe por este até sua interseção com o prolongamento da Avenida Marechal Hermes; dobra à direita e segue por esta até o início da poligonal. A preservação do Centro Histórico de Belém já havia sido prevista pelo Plano Diretor do Município de Belém, Lei nº 7.603, de 13 de janeiro de 1993, em seu artigo 171 e tornou-se regulamentada pela Lei de Desenvolvimento Urbano (Lei Ordinária Nº 7.401, de 29 de janeiro de 1988).

O que é o tombamento?

O tombamento é um ato administrativo realizado pelo Poder Público, nos níveis federal, estadual ou municipal. Os tombamentos federais são da responsabilidade do Iphan e começam pelo pedido de abertura do processo, por iniciativa de qualquer cidadão ou instituição pública. Tem como objetivo preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo a destruição e/ou descaracterização de tais bens.

Pode ser aplicado aos bens móveis e imóveis, de interesse cultural ou ambiental. É o caso de fotografias, livros, mobiliários, utensílios, obras de arte, edifícios, ruas, praças, cidades, regiões, florestas, cascatas etc. Somente é aplicado aos bens materiais de interesse para a preservação da memória coletiva.

O processo de tombamento, após avaliação técnica preliminar, é submetido à deliberação das unidades técnicas responsáveis pela proteção aos bens culturais brasileiros. Caso seja aprovada a intenção de proteger um determinado bem, seja cultural ou natural, é expedida uma notificação ao seu proprietário. Essa notificação significa que o bem já se encontra sob proteção legal, até que seja tomada a decisão final, depois de o processo ser devidamente instruído, ter a aprovação do tombamento pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e a homologação ministerial publicada no Diário Oficial. O processo finalmente termina com a inscrição no Livro do Tombo e a comunicação formal do tombamento aos proprietários.

Mais informações sobre tombamento estão disponíveis no site doIphan na seção que aborda assuntos referentes ao Patrimônio Material.

Os bens tombados no Ver-o-Peso

O Mercado do Ver-o-Peso possui 4 bens tombados individualmente e também está na área de abrangência do Centro Histórico de Belém tombado pelo Iphan.

Mercado de Peixe ou Mercado de Ferro

O Mercado de Ferro do Ver-o-Peso é um dos pontos turísticos mais importantes da cidade de Belém. Situado na confluência dos rios Guamá e Pará, na região conhecida como Baía de Guajará, é uma das construções de maior destaque do complexo do Ver-o-Peso, com sua estrutura toda em ferro oriunda da Inglaterra. Inaugurado em 1901 pelo então intendente Antônio Lemos, é considerado cartão-postal da cidade. Em seu interior há 67 boxes onde são comercializados peixes e camarões frescos; a área externa é composta por lanchonete, uma barbearia, bares, pontos comerciais de produtos religiosos, de material para pesca, esportivo e descartáveis, e é onde se realiza também a venda de caranguejos vivos.

A história do Mercado de Peixe se confunde com a do Ver-o-Peso em geral, pois naquele local, às margens da baía, desde o início do século XVII foi instalada uma das chamadas Casas do Ver-o-Peso, projetadas no Brasil em 1614, no Rio de Janeiro, para aferição do peso exato de qualquer mercadoria e cobrança dos respectivos impostos. Desde então a comercialização das mais diferentes mercadorias provenientes dos recursos naturais da região foi sendo feita nos arredores. No final do século XIX foi realizada a construção do Mercado de Ferro, cuja estrutura metálica, com suas torres, colunas e escadas em ferro e zinco, foi toda forjada em Londres e Nova York, transportada e montada no local. Inicialmente o mercado abrigou a feira com a comercialização de frutas, verduras e demais produtos e somente depois passou a funcionar exclusivamente como Mercado de Peixe.

Mercado de Carne ou Mercado Bolonha

Trata-se do Mercado Francisco Bolonha, popularmente conhecido como Mercado de Carne. Abriga lojistas e feirantes, em sua maioria comercializando carnes e vísceras, mas também alguns que se dedicam ao comércio de refeições, polpas de frutas e produtos religiosos. Embora outras mercadorias também sejam vendidas, é unicamente neste lugar, dentro do complexo do Ver-o-Peso, que se faz o comércio de carne.

No complexo do Ver-o-Peso, lojistas e feirantes ocupam categorias diferentes, principalmente no Mercado de Carne, onde a distinção destes se faz maior, muitas vezes gerando conflitos com os demais trabalhadores da feira. Atualmente, o prédio do Mercado de Carne está em reforma e parte dos locatários foram alojados nas ruas laterais (Oriental e Ocidental); outros estão ocupando um prédio (do grupo Y. Yamada) na Boulevard Castilho França; outros, ainda, estão sem exercer suas atividades, recebendo, por isso, um auxílio da prefeitura de Belém.

Esta edificação tem grande importância histórica por ser um dos prédios mais antigos do entorno. Depois de passar por algumas reformas, empreendidas inclusive pelos próprios trabalhadores, o Mercado de Carne atualmente está sendo restaurado por intermédio do Programa Monumenta.

Praça do Relógio

A Praça Siqueira Campos, popularmente conhecida como Praça do Relógio é tombada por lei federal de 09 de novembro de 1977, e por lei municipal de 30 de março de 1990. Foi inaugurada em 05 de outubro de 1931, no perímetro formado pela Avenida Portugal, Doca do Ver-o-Peso, Rua Pedro Rayol e Travessa Marquês de Pombal.

Solar da Beira

O Solar da Beira é uma construção em estilo neoclássico onde funcionava o antigo órgão responsável pela fiscalização municipal. Atualmente é um espaço misto, de múltiplos usos: abriga o Museu do Índio e parte da administração da Feira, serve de base para guardas municipais e dispõe de banheiros abertos 24 horas por dia, que são geridos por uma cooperativa, na parte inferior do Solar.

Fonte: INRC Ver-o-Peso, 2010, Iphan/PA.

O INCR do Ver-O-Peso

 

O Levantamento Preliminar do Inventário de Referências Culturais do Conjunto Ver-o-Peso – INRC Ver-o-Peso, foi realizado entre 2008 e 2010, na cidade de Belém, a partir de proposta apresentada ao edital Petrobrás Cultural pela Associação Ver-as-Ervas e ao Programa Nacional de Apoio a Cultura do Ministério da Cultura, na modalidade mecenato.

Realizado em parceria com o Iphan/PA a partir de Termo de Cooperação firmado entre as partes, o INRC Ver-o-Peso foi desenvolvido por meio de metodologia adotada pelo Iphan, a qual consiste em levantamento bibliográfico e iconográfico, além de trabalho de campo onde, a partir de contatos identificados previamente e também no decorrer do trabalho, são documentados, por meio de entrevistas e observação, o sítio físico, localidades e bens culturais nas categorias celebração, ofícios e modos de fazer, formas de expressão, lugares e edificações.

O inventário tem por objetivo, produzir conhecimento sobre o bem cultural inventariado. Os resultados obtidos com a pesquisa possibilitam uma série de desdobramentos em outras pesquisas, bem como podem ser trabalhados e apresentados das mais diferentes formas como, por exemplo, no vídeo produzido no âmbito do projeto; em exposições, como a que está sendo montada pelo Iphan; em publicações diversas entre outras formas possíveis.

De acordo com a metodologia utilizada, o resultado do trabalho é apresentado em forma de relatório constituído pelos formulários produzidos no decorrer do trabalho, os quais reúnem e organizam os dados da pesquisa que seguem nesta brochura. E também, posteriormente, serão inseridos em banco de dados do Iphan.

O êxito do trabalho deve-se a disposição da Ver-as-Ervas de apresentar o projeto à Petrobras e de firmar a parceria com o Iphan, mas sobretudo ao entusiasmo dos trabalhadores do Ver-o-Peso que perceberam nesta oportunidade a possibilidade de valorização e divulgação de seu trabalho e de seu patrimônio cultural que é o Ver-o-Peso. Patrimônio este que preservam por meio da transmissão de seus saberes e ofícios por gerações e cuja dimensão e significados extrapolam os limites locais e do estado do Pará, fazendo desse lugar tão especial um patrimônio cultural brasileiro.

O que é o INRC?

O Inventário Nacional de Referências Culturais – INRC – é uma metodologia de pesquisa desenvolvida pelo Iphan que tem como objetivo produzir conhecimento sobre os domínios da vida social aos quais são atribuídos sentidos e valores e que, portanto, constituem marcos e referências de identidade para determinado grupo social. Contempla, além das categorias estabelecidas no Registro, edificações associadas a certos usos, a significações históricas e a imagens urbanas, independentemente de sua qualidade arquitetônica ou artística.

A delimitação da área do inventário ocorre em função das referências culturais presentes num determinado território. Essas áreas podem ser reconhecidas em diferentes escalas, ou seja, podem corresponder a uma vila, a um bairro, a uma zona ou mancha urbana, a uma região geográfica culturalmente diferenciada ou mesmo a um conjunto de segmentos territoriais.

Mais informações sobre tombamento estão disponíveis no site doIphan na seção que aborda assuntos referentes ao Patrimônio Imaterial.

Os bens inventariados no Ver-o-Peso

Após a realização do INRC Ver-o-Peso foram inventariados 75 bens, identificados a partir de entrevistas com os trabalhadores do Ver-o-Peso, os bens estão distribuídos nas seguintes categorias: Celebrações; Edificações; Formas de Expressão; Lugar e Ofícios e Modos de Fazer.

Celebrações

Festas Juninas; Círio de Nazaré; Queima de fogos em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré; Festa do Mercado do Peixe; Festa de aniversário do Ver-o-Peso; Festival de Degustação do Peixe Salgado; Festa do aniversário de Belém; e Festa de São Benedito da Praia.

Edificações

Lojas atrás das portas do Mercado do Peixe; Praça da Palmeira ou “Pracinha”; Praça do Pescador; Prédio da Administração da feira; Mercado de Carne; Mercado do Peixe; Recebedoria; Delegacia; Casa Farol; Casa Chamma; Estação das Docas; Solar da Beira; Necrotério; Hotel Ver-o-Peso; e Depósito do Apolônio.

Formas de Expressão

Torcida Ver-o-Remo

Lugar

“Lá em baixo”; Porto do Sal; Praça do Relógio; Feira do Açaí; Pedra do Peixe; e Curral das Éguas.

Ofícios e Modos de Fazer

Ofício de erveira e erveiro; Ofício de mateiro; Modos de tirar e amarrar o mato; Ofício de regateiro; Ofício de barraqueiro de festa de santo; Ofício de funileiro; Ofício de reparador de eletrodomésticos; Ofício de amolador de faca; Ofício de peixeiro; Ofício de balanceiro; Ofício de carregador; Ofício de vendedor de miudezas; Ofício de vendedor de frutas; Ofício de vendedor de polpa de frutas; Ofício de vendedor de produtos importados; Ofício de vendedor de mariscos; Ofício de vendedor de animais vivos; Ofício de vendedor de peixe salgado; Ofício de vendedor de muda de plantas; Ofício de vendedor de camarão salgado; Ofício de vendedor de farinha; Ofício de vendedor de roupas; Ofício de vendedor de ferragens; Ofício de vendedor de redes; Ofício de vendedor de calçados; Ofício de vendedor(a) de refeição; Ofício de vendedor de hortifrútis; Ofício de vendedor de tucupi; Ofício de vendedor de artesanato; Ofício de vendedor de mistura; Ofício de vendedor de descartáveis e artigos de mercearia; Ofício de vendedor de pirarucu, piracuí e aviú; Ofício de cambista e rifeiro; Ofício de vendedor de maniva; Ofício de pelador de maniva; Ofício de açougueiro; Ofício de marchante; Ofício de lombador; Ofício de magarefe; Ofício de carregador e arrumador barracas; Ofício de manicure; Ofício de vigia/segurança de apoio; Modo de venda a retalho; Modo de venda na banca; e Modo de venda no tabuleiro.

Fonte: INRC Ver-o-Peso, 2010, Iphan/PA

Ver-O-Tempo

 
1616
Fundação da cidade de Belém, margeada pelo igarapé do Piri; início da construção do Forte do Presépio;
1627
Construção de ponte ligando as duas margens do igarapé do Piri;
1653
Construção da Casa da Alfândega, nas proximidades do atual Ver-o-Peso;
1687
O Governador Francisco Coelho de Carvalho pede ao Rei de Portugal concessão de tributos do Ver-o-Peso;
1688
Criação da Casa de Haver o Peso;
1788
O rendimento do imposto do Ver-o-Peso passa da Coroa para a Câmara Municipal;
1803
Aterramento do igarapé do Piri;
1808
Construção da doca do Ver-o-Peso;
1835
Desembarque, no Ver-o-Peso, dos cabanos que tomaram o Palácio e assassinaram o Governador Lobo de Souza para ocupar o poder durante a maior revolução popular da região;
1839
Extinção da repartição do Vero-Peso, transferindo para a Recebedoria Provincial a função de recolhimento do imposto que ali era recebido;
1855
A berlinda da procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré fica presa num lamaçal em frente ao Ver-o-Peso, e comerciantes do local providenciam uma corda para ajudar em sua retirada e na continuação da caminhada;
1897
Iniciam-se as obras de instalação do Mercado de Ferro (Mercado de Peixe);
1901
Inauguração do Mercado Francisco Bolonha (Mercado de Carne) e do Mercado de Ferro, pelo intendente Antonio Lemos;
1969
É feito por Ernesto Cruz o primeiro pedido de tombamento do Ver-o-Peso;
1977
Tombamento do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico Ver-o-Peso e áreas adjacentes pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, incluindo o Boulevard Castilhos França, o Mercado de Carne e o Mercado de Peixe, o casario, as praças do Relógio e Dom Pedro II, a doca de embarcações, a Feira do Açaí e a Ladeira do Castelo;
1985
Realiza-se ampla reforma do Vero- Peso, envolvendo restauração do Mercado de Ferro, reforma do Solar da Beira, melhorias na Feira do Açaí, Praça do Pescador e na área da feira livre, com instalação de barracas padronizadas;
1988
Inicia-se nova grande reforma no Ver-o-Peso objetivando intervir não só no aspecto paisagístico da feira, mas no universo social dos feirantes, por meio de ações de organização e qualificação dos trabalhadores;
1990
A Fundação Cultural do Município de Belém realiza o Inventário Histórico, Sociocultural, Arquitetônico e Ambiental do Ver-o-Peso, com vistas à sua inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco;
2002
Fim da reforma iniciada em 1998 no Ver-o-Peso, com a constituição do Condomínio Participativo e outras formas de organização civil dos trabalhadores de todos os setores, objetivando melhorias nas condições de trabalho relativas ao espaço físico e à preservação patrimônio material e imaterial expresso nos diversos modos de vida presentes na feira;
2004
A data de 26 de março é incorporada ao calendário festivo de Belém como o aniversário do Ver-o-Peso, de acordo com a Lei Ordinária n.º 8332, de 16 de junho desse ano;
2008
Início do Inventário de Referências Culturais do Ver-o-Peso, iniciativa da Associação Ver-as-Ervas, com objetivo de identificar expressões do patrimônio cultural imaterial desse lugar;
2010
Lançamento do filme Ver-o-Peso, produto do Inventário de Referências Culturais do Vero- Peso
2011
Em 3 de maio desse ano o tombamento do Centro Histórico de Belém é aprovado pelo Conselho Consultivo do Iphan, incluindo o Ver-o-Peso e cerca de 3.500 edificações. Antes dessa decisão, eram 23 bens tombados em nível federal na cidade de Belém, com cerca de 800 imóveis protegidos; Em 29 de setembro é inaugurada, no Canto do Patrimônio (Iphan), a exposição Ver-o-Peso.