Portugueses
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A presença portuguesa em Belém é sem dúvida bastante expressiva. Quando trabalhamos com diversos tipos de documentação e levantamos o número de imigrantes, os portugueses costumam aparecer em maior escala do que qualquer outra nacionalidade.

Nos dados censitários disponíveis para a capital paraense, como o do ano de 1872,vemos que 79% dos estrangeiros residentes em Belém eram portugueses. Esse número cai para 68% no censo de 1920, mas continua representando um valor significativo que indica a hegemonia dessa imigração para a capital paraense.

Quando trabalhamos os inventários post mortem, entre os anos de 1870 a 1920, do cartório Odon Rhosard, do fundo do judiciário pertencente ao acervo do CMA, observamos que cerca de 10% deles dizia respeito a estrangeiros residentes no Pará, dentre estes, 87% eram portugueses. Mas quem eram essas pessoas que para cá migraram? Qual o seu perfil? Os seus pedidos de passaporte nos dão algumas pistas! A maior parte dos homens e mulheres portuguesas que tiveram o Pará como destino vinham dos distritos de: Viana do Castelo, Viseu, Bragança, Aveiro, Leiria, Beja, Santarém, Porto, Coimbra, Castelo Branco, Lisboa e Ponta Delgada. Ao saírem de seus locais de origem, em vilas rurais de Portugal, dirigiam-se para Lisboa, onde ficavam em hotéis ou casa de conhecidos e parentes, até conseguirem dar entrada no pedido de passaporte e ter a autorização para viajar.

Entre esses imigrantes a presença masculina era majoritária e suas principais atividades eram a de: proprietários, comerciantes, empregados no comércio, marítimos e trabalhadores agrícolas. Outras profissões apareceram em menor escala, como as de: serralheiro, jornaleiro, padeiro, sapateiro, carpinteiro, criado de servir, calafate, alfaiate, pescador e vendedor ambulante. Este perfil mostra a diversidade de suas ocupações, embora as atividades associadas ao comércio predominassem.

A maioria dos homens declarou-se solteiro, mas muitos deixavam a família em Portugal com o propósito de se estabelecer e posteriormente chamá-la. Assim, muitas das mulheres que para cá vieram justificavam como motivo da viagem a possibilidade de ficar em companhia do marido, ou da família, que já se encontrava no Pará. Contudo, outras mulheres também vinham para tratar de negócios da casa ou mesmo para trabalhar exercendo atividades ligadas ao serviço doméstico, como: criadas, engomadeiras, costureiras e amas-de-leite. Comumente, essas mulheres trabalhadoras vinham sozinhas ou em companhia de seus filhos, alguns deles bastardos. Uma vez no Brasil, esses imigrantes se fixaram e construíram uma vida familiar a partir do casamento. Dentre os homens que procuraram o casamento formal, a maior parte casou-se com mulheres paraenses, em detrimento das conterrâneas.

O que, em parte, pode ser compreendido pela pouco expressiva migração feminina para estas paragens. Em contrapartida, as mulheres portuguesas que viviam em Belém contraíram matrimônio majoritariamente com seus conterrâneos. Estes são apenas alguns dados que nos aproximam desta importante migração num período específico marcado pela economia da borracha em Belém. Mas, muitas outras histórias, trajetórias e pesquisas podem estar esperando para ser contadas a partir do vasto acervo deste Centro de Memória que é da Amazônia.

Profa. Dra. Cristina Donza Cancela (UFPA)

Fonte: Cartório Privativo de Casamentos Civis de Belém

Fonte: 1º e 2º Distritos Criminais da Cidade de Belém

Espanhóis
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No contexto econômico da economia da borracha no final do século e início do XX chegaram à cidade de Belém, imigrantes das mais diferentes nacionalidades, como os espanhóis oriundos em sua maioria da região da Galícia. Na maioria eram lavradores que eram encaminhados ao núcleo colonial de Outeiro, às proximidades de Belém, embora também aqui aportassem homens de outras profissões como ferreiro, carpinteiro, chocolateiro.

A presença desses imigrantes tornou-se uma constante na cidade fosse no comércio informal ou no pioneirismo de Joaquim Llopis, um industrial da borracha que foi buscar na sua distante cidade espanhola o cinegrafista Ramon de Baños para supervisionar a parte técnica dos primeiros cinemas da cidade, além de fazer um documentário sobre a extração do látex e o seu beneficiamento.

O governo do estado do Pará por meio da Repartição de Obras Pública, Terras e Colonização estabeleceu com os agentes Francisco Cepeda,  Heliodoro Jaramillo e Emílio Martins  a introdução de imigrantes no estado do Pará. Determinava que os contratantes ficavam obrigados a fazer às suas custas nos países estrangeiros de origem dos imigrantes a propaganda das condições e vantagens do solo do Pará, tanto que  em 1895 foi editado em Barcelona, na Espanha, um livro intitulado El Pará visando justamente atrair os espanhóis para o Estado.
No ano de 1896 foram introduzidos 3.168 imigrantes espanhóis, sendo destes  um total de 1.777 partiram para os núcleos agrícolas e 1.368 ficaram na capital. Grande parte dos espanhóis seguiu para os núcleos coloniais de Monte Alegre e Bragança, e outros se empregaram em estabelecimentos industriais da capital e do interior ou como criados em casas de famílias.
Na cidade de Belém, a maioria dos migrantes embora vivendo em condições materiais precárias, trabalhando nos mais diversificados serviços, esses sujeitos não deixaram de preservar seus costumes e tradições, como as touradas que ocorriam todos os domingos no Colyseu Paraense, situado na praça Batista Campos, reforçando os laços de identidade com a pátria de origem.

Prof. Dra. Maria de Nazaré Sarges (UFPA)

Fonte: Cartório Privativo de Casamentos Civis de Belém

Fonte: 1º e 2º Distritos Criminais da Cidade de Belém

Fonte: Inventários Cartórios Santiago, Pepes, Sarmento, Odon

Italianos
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A presença italiana na Amazônia do fim do século XIX até às primeiras décadas do século XX insere-se no conjunto das correntes migratórias internacionais que se dirigiram para a região, tendo como principal motivação a busca pelas apregoadas riquezas decorrentes da exploração da borracha. Entre os italianos, um grupo significativo foi formado por religiosos que vinham atender determinações específicas de suas respectivas congregações.

Eles deixaram as marcas de sua presença em estabelecimentos de ensino e em hospitais. Outro grupo importante era composto por arquitetos, pintores, músicos e outros artistas. A presença desses artistas foi de grande relevo pelas marcas que deixaram nas cidades amazônicas e a propaganda de suas obras na Itália pode ter constituído um estímulo para outros grupos emigrarem espontaneamente.

Ganha especial relevo, a chegada de famílias de imigrantes italianos que elegeram a Amazônia como região de destino aqui se fixaram e se integraram à economia e è sociedade amazônicas. Embora o número de imigrantes vindos para a Amazônia seja menor, se comparado com os que vieram para o Sul e Sudeste do Brasil, evidências empíricas permitem agrupar os imigrantes italianos em dois grandes segmentos: os que vieram para colônias agrícolas, através de imigração subsidiada e a imigração espontânea dirigida às cidades. A imigração dos dois segmentos foi contemporânea, mas se diferenciaram quanto às razões norteadoras da migração, à composição social, à origem regional e às áreas de destino dentro da Amazônia.

O fluxo migratório de italianos direcionado para as colônias agrícolas foi composto por grupos familiares de agricultores que em 1899, em navios da companhia La Ligure Brasiliana deixaram a Itália destinando-se a povoar colônias agrícolas de Anita Garibaldi, Ianetama localizadas às margens da estrada de ferro de Bragança , no atual município de Castanhal e colônia modelo de Outeiro, localizada no distrito de Icoaraci. Para a colônia Anita Garibaldi vieram imigrantes do Veneto, Lombardia, Piemonte e Emilia Romagna. Para Ianetama, vieram do Veneto, da Campania e da Sicilia. Para Outeiro vieram colonos do Veneto.

A procedência regional dos italianos que vieram para as cidades amazônicas apresenta-se diversificada. Algumas famílias vieram da Itália setentrional, das regiões do Veneto, Lombardia, Emilia Romagna, Piemonte e Ligúria, ou da Itália central, região do Lazio e da Toscana, e ainda da Sicilia. Embora a origem regional possa pontualmente ser diversificada, a maioria dos imigrantes (cerca de 90%) veio da Itália meridional, principalmente de três regiões, Calábria, Basilicata e Campânia. Constituiu um grupo mais numeroso do que o da colonização dirigida para as colônias agrícolas e teve maior continuidade. Seus descendentes ainda são encontrados em várias cidades amazônicas.

Na Amazônia, o segmento dos italianos se dirigiu às cidades fixando-se nas capitais do Pará e do Amazonas, Belém e Manaus e em alguns municípios localizados ao longo do rio Amazonas e de seus principais afluentes, por onde circulava o capital mercantil decorrente da economia da borracha. Mas, mesmo com o declínio dessa economia muitos permaneceram nas cidades. Os italianos inseriram-se em diferentes setores da economia, o crescimento urbano propiciava condições favoráveis e criava um mercado de atividades de prestação de serviços que atraiu boa parte dos imigrantes que chegavam às cidades. Por outro lado, os que traziam algumas economias, geralmente empregavam seus capitais na criação de estabelecimentos comerciais nas capitais e em cidades do interior. Houve casos em que a habilidade artesanal evoluiu para a criação de fábrica de sapatos ou proporcionou a criação de alfaiatarias e ourivesarias. Ao lado destes imigrantes economicamente bem situados muitos permaneceram exercendo atividades de menor qualificação como engraxates, jornaleiros, marceneiros, pedreiros, entre outras.Os imigrantes italianos também tiveram participação significativa nos primórdios da indústria paraense como no beneficiamento de sementes oleaginosas usinas Victoria e Conceição, criadas década de 1920. A literatura destaca também a importância dos italianos na instalação das primeiras fábricas de calçados na Amazônia. Nesse setor destacou-se fábrica Boa Fama que era de propriedade do lucano Nicola Conte.

Na Amazônia, a presença italiana é reconhecida pela importância econômica e cultural que representou. Os imigrantes italianos buscaram a preservação de sua cultura e identidade através das associações como a Unione Italiana D'Istruzioni e a Società Italianadi Beneficenza ou ainda através da imprensa com a criação de jornais como o L'Eco Del Pará que circulou em Belém de 1898 a 1900. Por outro lado, não sendo muito numerosos, esses italianos não constituíram núcleos fechados nas cidades amazônicas e rapidamente passaram a fazer parte delas introduzindo novos hábitos, inclusive na culinária com o uso de massas e o consumo de verduras e legumes, produtos de suas hortas caseiras.

O interesse pela educação dos filhos é outro ponto a ser destacado. Os imigrantes desejavam um futuro melhor para os seus filhos, bem diferente de sua experiência migratória. O expressivo número de profissionais liberais descendentes desses imigrantes italianos que se encontram na Amazônia parece confirmar a realização da aspiração dos pais e avós imigrantes, são profissionais qualificados que dão significativa contribuição na produção material e intelectual da sociedade regional.

Profa. Dra. Marília Ferreira Emmi (UFPA)

Fonte: Cartório Privativo de Casamentos Civis de Belém

Fonte: 1º e 2º Distritos Criminais da Cidade de Belém

Fonte: Inventários Cartórios Santiago, Pepes, Sarmento, Odon

Marroquinos
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Belém é considerada a capital brasileira com maior concentração de judeus marroquinos de tradição sefaradim (denominação dada ao hebreu do Ocidente ou Espanha). Desde o início do século XIX muitos judeus procedentes principalmente de Marrocos, mas também da Argélia e Egito, países do norte da África, migraram para a região amazônica, ainda que seja possível encontrar grupos remanescentes em outras regiões do país e da América Latina, como por exemplo, no Peru.

Nesse século a publicação de um conjunto de leis e tratados portugueses favoreceu o retorno de judeus marroquinos a Portugal, de lá muitos seguiram para o Brasil pela rota Tanger-Lisboa-Belém. Em 1808 o príncipe regente D. João VI abriu os portos do Brasil às potências estrangeiras, fato que admitia o ingresso de não católicos ao país. Em 1810 o tratado de comércio e navegação assinado com a Inglaterra, registrava expressamente em seu artigo 12 que "os estrangeiros residentes nas possessões portuguesas não seriam perseguidos ou inquietados por matérias de consciência, assim nas pessoas, como nos seus bens" . Tal determinação tranqüilizava em relação à Inquisição, que embora já enfraquecida resistiu até 1821.

Naquele mesmo ano uma lei publicada em 18 de fevereiro, em Portugal, ratificando as liberdades e os privilégios concedidos pelos primeiros reis daquele Reino aos judeus foragidos, também era convidativa ao grupo que sofrera séculos de perseguição na Península Ibérica e que desde o domínio mulçumano, se via em condições restritas também em Marrocos.

Depois desses eventos formais, grupos de judeus norte-africanos estabeleceram-se de fato em Portugal, nas ilhas Madeiras e Açores. Em meados do XIX registra-se em Portugal, a presença de famílias de origem marroquina, como: Abecassis, Seruya, Sebag, Azancot, Bensabat, Aben-Athar, Barcessat, Zagury, Amzalack e tantas outras, que posteriormente também seriam encontradas no Brasil, mais especificamente na Amazônia.

Por fim, a primeira Constituição brasileira (1824) que concedia a liberdade de culto às religiões não católicas (em âmbito privado) foi importante para atrair judeus ao solo nacional.

Esse conjunto de leis, apesar de importante, não explica, de todo, o interesse de judeus marroquinos pela região. Nas décadas finais do XIX foi lançado em Portugal e outros países da Europa peças publicitárias que buscavam atingir uma massa de trabalhadores e investidores para a Amazônia. No imaginário europeu as representações da Amazônia oscilavam entre um ambiente hostil e inseguro e o "El dorado", abundante em oportunidade de enriquecimento.

Os judeus sefaradim também contavam com outra fonte de informação e estímulo - a rede de parentescos que se formava em Belém e Manaus. Entre os que vieram para o Brasil e os que permaneceram em Marrocos e Portugal muitos postais, cartas e pequenas correspondências foram trocados. Nelas notícias de enriquecimento e prosperidade circulavam e encorajavam jovens judeus a se aventurar pelas cidades da Amazônia.

No início do século XX já estabelecidos e com o fluxo migratório apenas com eventos pontuais, esse grupo de imigrante se preocupou em consolidar a comunidade regional e, também, nacionalmente. Organizados e já com um equipamento urbano consolidado (sinagogas, cemitérios, associação e uma escola que funcionava em Belém), os judeus de origem marroquina puderam ser visualizados com maior expressividade na trama das cidades e lugarejos em que se estabeleceram. Escreveram nos jornais, fundaram associações, publicaram seu próprio periódico e passaram a debater mais abertamente seu lugar social neste espaço.

Profa. Amélia Bermeguy (ESMAC)

Fonte: Cartório Privativo de Casamentos Civis de Belém

Fonte: 1º e 2º Distritos Criminais da Cidade de Belém