Para ver relíquias e contar a história PDF Imprimir

Vestígios da ocupação dos Jesuítas, ruínas despertam
curiosidade de turistas e interesse dos moradores

por Igor de Souza /Outubro 2011
foto Acervo do Pesquisador


Há cerca de quatro séculos, os padres da Companhia de Jesus chegaram ao território conhecido, atualmente, como Vila de Joanes, pertencente ao município de Salvaterra, na Ilha do Marajó. Lá, desenvolveram atividades e construíram a primeira igreja da localidade. O tempo passou, os padres foram expulsos da terra e o que resta, agora, do antigo templo são as ruínas, as quais despertam a curiosidade de visitantes e o interesse dos moradores da Vila em preservar esse patrimônio arqueológico.

Buscando compreender o interesse da população local da Vila de Joanes e articular um trabalho de gestão compartilhada, a professora Luzia Gomes Ferreira, da Faculdade de Artes Visuais e Museologia do Instituto de Ciências da Arte (ICA) da UFPA, desenvolve o Projeto de Extensão "O passado no presente: musealização compartilhada do patrimônio arqueológico na Vila de Joanes, Ilha do Marajó –  PA", financiado pela Pró-Reitoria de Extensão da UFPA (Proex). O objetivo principal do Projeto é contribuir para a preservação, a comunicação e a manutenção do referido patrimônio na comunidade.

O Projeto propõe uma parceria acadêmica entre os campos da Museologia e da Arqueologia na UFPA, adotando o princípio da multivocalidade. Está vinculado à pesquisa "Os significados do patrimônio arqueológico para os moradores da Vila de Joanes, Ilha do Marajó", coordenada pela professora Marcia Bezerra de Almeida, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPA (PPGA).

A ideia de elaborar o Projeto surgiu quando a professora Luzia Gomes foi requisitada para prestar assessoria técnica ao Projeto "Pesquisa arqueológica e educação patrimonial na Vila de Joanes, Ilha do Marajó, PA", feito em parceria entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Museu do Marajó e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Nele, Luzia Gomes auxiliou a reestruturação da exposição de vestígios arqueológicos, a qual funcionou no período de abril de 2009 a abril de 2010 e foi montada em parceria com os moradores na Escola de Ensino Fundamental de Joanes.

Vestígios arqueológicos encontrados no quintal de casa

Durante o trabalho, foi possível perceber o interesse da população pelos vestígios arqueológicos presentes na paisagem local, alguns encontrados nos terrenos das residências, tais como fragmentos cerâmicos, pedaços de louças, metais e moedas. A exposição, que deveria permanecer por pouco tempo, agradou turistas e moradores da Vila, o que instigou a equipe gestora da Escola a solicitar a permanência dela por mais tempo. Esse tempo foi de um ano, e os materiais ficaram expostos dentro de uma sala de aula, recebendo visitas de moradores e de turistas brasileiros e estrangeiros que frequentam a Vila de Joanes.

No entanto a exposição teve que ser desmontada por haver a necessidade de a Escola ocupar a sala de aula. Assim, a professora Luzia Gomes decidiu elaborar e executar o Projeto de Extensão para reestruturar a exposição na Vila de Joanes. "Quando eu comecei a fazer a assessoria, percebi que a população envolvida, em Joanes, tinha interesse em manter o patrimônio lá e, posteriormente, criar um museu. O interesse de compreender o que é museu para os moradores de Joanes deu origem ao meu projeto de mestrado no PPGA e ao projeto de extensão que elaborei", explica a professora Luzia Gomes.

Para reestruturar a exposição, a equipe busca desenvolver ações museológicas, como documentação, conservação e comunicação, sendo que esta última envolve a exposição propriamente. Além disso, busca considerar interesses, sentimentos, ideias e modos de se comportar e agir compartilhados socialmente pelos moradores com relação à porção material que compõe a paisagem local.

Todavia, na Vila de Joanes, o objetivo não é montar um museu aos moldes clássicos, e sim identificar que tipologia de museu os moradores pretendem constituir. "Durante muito tempo, os processos de musealização ocorreram dentro de muros de museus clássicos, nos quais as memórias de vários grupos sociais foram excluídas. No entanto, hoje, nós temos a ideia de que a musealização pode ocorrer em outros espaços, tanto é que existem grandes projetos de musealização de sítios arqueológicos, e Joanes está dentro desse contexto contemporâneo, onde é possível refletir e executar novas estratégias de musealização do patrimônio", ressalta a professora Luzia Gomes.

Narrativas sobre patrimônio estarão disponíveis na web

Para compreender o que significa museu para os moradores de Joanes, também se estabelece um diálogo com a Antropologia, adotando o desenvolvimento do trabalho etnográfico. Durante o trabalho em campo, foram realizados a observação participante, as entrevistas e o registro audiovisual para entender como os moradores da Vila de Joanes interpretam e interagem com o patrimônio arqueológico. "O Projeto trabalha com outras narrativas que não sejam apenas as minhas, como museóloga, mas que os próprios moradores possam contribuir com suas interpretações, as quais podem ser trabalhadas na exposição. Buscamos, sempre, estabelecer um diálogo para saber como eles querem se autoapresentar nesse espaço, afinal, é o patrimônio deles", afirma a coordenadora Luzia Gomes.

Ao realizar as entrevistas, as quais ocorreram no primeiro semestre deste ano, foi identificado que alguns moradores almejam a criação de um museu. "Eles possuem a perspectiva de que o museu se concretize e que seja, como eles dizem: um espaço no qual eles possam ver 'relíquias' e contar a 'história de Joanes', ressalta Luzia Gomes.

As visitas dos pesquisadores à Vila de Joanes acontecem mensalmente. Futuramente, a professora Luzia Gomes buscará concretizar outra etapa, criar um banco de dados a partir das narrativas dos moradores ao apresentar a relação deles com as ruínas, com os vestígios encontrados no cotidiano da comunidade e a partir das interpretações acerca do patrimônio arqueológico em Joanes. "A intenção é disponibilizar tudo isso na web, a partir, é claro, do consentimento deles. Dessa forma, se for constituído um museu na Vila, nós já iremos saber o que os moradores estão pensando e o que eles querem desse espaço", finaliza a professora.

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