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Castanhal está entre os municípios que foram visitados pelo Projeto
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por Ana Carolina Pimenta
foto Mácio Ferreira
“Corera”; “Debruado”; “Enfarruscado”; “Munganga”; “Sentina” *. Se você não sabe o que essas palavras querem dizer, a coleção intitulada Vocabulário Terminológico Cultural da Amazônia Paraense te ajudará a esclarecer. São seis livros de autoria da professora da Faculdade de Biblioteconomia da UFPA, Odaisa Oliveira, os quais reúnem termos culturais retirados de narrativas orais coletadas pelo Projeto “O Imaginário nas Formas Narrativas Orais Populares da Amazônia Paraense” (IFNOPAP) em diversos municípios paraenses. Os vocábulos presentes nas obras caracterizam traços socioculturais e naturais: instrumentos de trabalho, doenças, culinária, medicina popular, danças, natureza, habitat, entre outros.
A iniciativa integra o Projeto “A Representação Simbólica das Narrativas Populares da Amazônia Paraense como Linguagem de Informação” (RESNAPAP), que, desde 1998, mapeia, descreve e divulga o vocabulário específico a cada região deste vasto Estado. Para tanto, a coleção está organizada da seguinte maneira: Abaetetuba, Belém e Santarém (vol. 1), Castanhal (vol.2), Bragança (vol.3) e Marajó (vol.4), evidenciando não só aspectos linguísticos, como também antropológicos. Ao todo, a coleção será composta por seis volumes. Dois volumes, correspondentes aos municípios de Altamira e Cametá, ainda serão publicados.
Segundo Odaisa Oliveira, coordenadora do Projeto e autora dos livros, a coleção contribui para o entendimento da cultura paraense ao registrar e valorizar, por meio da história oral, as memórias e recordações de indivíduos. “Muitos termos estão desaparecendo da fala dessas pessoas e o estudo busca, justamente, identificá-los para que as próximas gerações possam conhecê-los”, explica. Assim, um dos aspectos metodológicos do Projeto é registrar palavras ou expressões em desuso, mas que ainda persistem na língua utilizada. É o caso de “jirau”, espécie de pia de madeira bastante rústica, colocada na parte externa da casa, para que o assoalho não fique molhado durante a lavagem da louça. No município de Belém e em outras cidades maiores, o vocábulo tem se tornado obsoleto em virtude da arquitetura das casas modernas. Como o jirau tem caído em desuso, o próprio termo que o designa acaba sofrendo o mesmo processo.
Vocabulário surge a partir de histórias contadas
A matéria-prima para se chegar a esta compilação de termos e expressões é a fala, as histórias contadas que representam o conhecimento acumulado por gerações, com seus mitos, costumes, valores e crenças. “É importante observar que os entrevistados retratam, em suas falas, o lugar onde vivem, o cotidiano, a fauna e a flora...”, explica a professora Odaisa Oliveira.
Tendo em vista este esforço de se retratar as riquezas de contexto e significado, é possível vislumbrarmos na coleção, por exemplo, os vários elementos do fantástico que habitam o imaginário do homem da Amazônia. A autora dos livros, inclusive, diz que, por vezes, os pesquisadores acabam sendo levados ao dilema de acreditar ou não naquilo que é contado. “Mãe-do-Rio”, “Mãe-do-Mato”, “Cobra Norato”, “Mapinguari” e “Visagens” permeiam as histórias contadas e são tratados como seres reais pelos narradores. Para exemplificar, o volume III, referente à região de Bragança, traz o substantivo “Ataíde”, explicado como um ser antropomorfo, meio homem, meio macaco, que, segundo a crença, habita os manguezais bragantinos, violentando homens e mulheres que tentam destruir seu ecossistema.
De modo a situar melhor o leitor, a autora se preocupa em dar a explicação semântica e sintática e, abaixo, inserir fragmentos das histórias coletadas, nos quais se encontra o vocábulo designado. O termo “Peru”, presente no volume I, por exemplo, está assim explicado: “s.m. Homem da cidade de Abaetetuba, condenado a transformar-se num peru...”. Abaixo do significado, está o trecho oral do qual foi retirado o vocábulo: “Ele era um peru, se transformava num peru. Ele cumpria um fado. [...] Sempre eles dizem que quem faz alguma coisa errada ou bate em pai e mãe, ou pratica sexo com a filha, mãe [...]” (sic).
O curioso é que algumas palavras possuem a mesma grafia, a mesma pronúncia, mas ganham significados diferentes de acordo com a região em que são faladas. Como o termo “Pipira”, que, no Marajó, é uma designação comum a pássaros de coloração preta e vermelha. Já em Belém, o termo é usado para designar mulheres vulgares.
Seleção inclui gírias regionais
Como um dicionário tradicional, a coleção classifica as palavras em substantivos, adjetivos, verbos e advérbios. Contudo, a seleção se dá de forma mais ampla e inclui, ainda, gírias regionais, personagens lendários e tabuísmos, que são termos considerados chulos, com apelo erótico ou blasfêmico. Os termos “Chapuleta” (Vol.I) e “Piriquitância” (vol.IV), por exemplo, são formas vulgares de designar os órgãos sexuais masculinos e femininos, respectivamente.
Outra categoria de palavras abordadas na obra são aquelas onomatopaicas, ou seja, aquelas que reproduzem sons. Dois bons exemplos são os termos “Brucu”, explicado como o som produzido por quem se deitou na rede, e o “Tachã”, que é a reprodução do som do andar das pessoas que carregam alguma coisa pesada, ambos presentes no vocabulário terminológico de Bragança.
Perspectivas - Exemplares dos livros têm sido entregues aos municípios envolvidos e se tornado fontes de pesquisa e memória de diversas comunidades. De acordo com sua coordenadora, a ideia é que o Projeto avance e amplie a área geográfica estudada. Odaisa Oliveira ressalta, também, que, nestes 11 anos de existência, o Projeto tem gerado uma rica produção científica, entre artigos, monografias, livros e trabalhos apresentados em congressos nacionais e internacionais.
A perspectiva é que seja criada a biblioteca digital, através da qual o usuário passará a ter acesso às informações coletadas, às publicações e ao acervo terminológico disponível. Outra expectativa é que se crie um tesauro – linguagem documentária controlada e dinâmica que contém termos relacionados genérica e semanticamente, cobrindo um domínio específico do conhecimento, nesse caso da cultura amazônica paraense. Um tesauro não faz definições detalhadas – função do dicionário –, mas relaciona termos e apresenta diferenças mínimas entre eles.
Publicado em Setembro de 2010
