ENTREVISTA
Novos cientistas na Academia Brasileira de Ciências
Para os professores, indicação significa reconhecimento e visibilidade.
Rosyane Rodrigues
| MÁCIO FERREIRA E ACERVO PESSOAL |
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| Ândrea, Pedro e Luci representam a UFPA na Academia Brasileira de Ciências |
Ândrea Ribeiro dos Santos, Luci Pereira e Pedro Walfir Souza Filho estão entre os 27 jovens cientistas escolhidos para pertencer aos quadros da
Academia Brasileira de Ciência (ABC) pelos próximos cinco anos. Professores da Universidade Federal do Pará, eles atuam no Laboratório de Genética Humana e
Médica do Instituto de Ciências Biológicas, no Laboratório de Oceanografia Costeira Estuarina e no Instituto de Geociências da Faculdade de Oceanografia,
respectivamente.
Os jovens cientistas de hoje foram alunos curiosos e aplicados. Aproveitaram a Iniciação Científica para dar os primeiros passos no ambiente
acadêmico. Em entrevista ao BEIRA DO RIO, os professores falam sobre a importância da indicação da ABC, dos projetos desenvolvidos atualmente e afirmam que,
para despertar o interesse da juventude pela ciência, é preciso promover o diálogo entre universidade e sociedade.
Beira do Rio – Desde agosto, vocês integram a seleta lista de jovens cientistas da Academia Brasileira de Ciências (ABC). O que isso significa para a
carreira de vocês?
Ândrea Ribeiro dos Santos – É muito mais visibilidade perante a sociedade acadêmica, no sentido de que têm sido desenvolvidos trabalhos e projetos de
qualidade na Região Norte especificamente. Essa visibilidade é importante para abrir portas e, enfim, poder discutir em outro nível, talvez um pouco mais
denso. É o reconhecimento entre os pares.
Luci Pereira – Fazer parte da lista de jovens cientistas da ABC é uma honra e uma gratificante recompensa pelo esforço de manter uma boa publicação
científica, de conseguir angariar recursos, de exercer cargos administrativos e de ser professor. Trabalhar nas ações promovidas pela Academia, com grandes
pesquisadores brasileiros e estrangeiros, membros da ABC, será bastante importante para minha carreira científica.
Pedro Walfir Souza Filho – Significa reconhecimento de toda uma trajetória científica, que começou quando eu entrei na Universidade. É o
reconhecimento de todo o esforço que você faz para fazer ciência e pesquisa no país e, principalmente, na Região Norte.
BR – Como foi o percurso acadêmico de vocês? Quando começou esse interesse pela pesquisa?
Ândrea – Meu pai era geógrafo, então, essa paixão que eu tenho por contar a história das populações foi muito influenciada pela presença dele. Quando
entrei na Universidade, procurei me engajar em um grupo de pesquisa, inicialmente, como estágio voluntário. Depois de um ano, conseguimos uma bolsa no CNPq.
Quando terminei a graduação, entrei para o mestrado e, em seguida, para o doutorado. Em 1996, fui contratada pela Universidade com uma bolsa recém-doutor e
logo surgiu o concurso na área em que eu atuo, fiz e passei.
Luci – Fui bolsista de Iniciação Científica do CNPq por três anos. Durante esse período, tive oportunidade de participar, publicar e apresentar
trabalhos em congressos nacionais e internacionais. Durante minha Iniciação Científica, publiquei meus dois primeiros artigos científicos e, sem dúvida, essa
bolsa foi uma excelente oportunidade para minha iniciação no meio científico.
Pedro – Entrei na Universidade em 1988, no curso de graduação em Geologia. Desde 1989, tive interesse em participar de projetos de pesquisa. Comecei
como voluntário, sem bolsa. Nessa época, tive oportunidade de embarcar num navio de pesquisa na foz do Amazonas e despertei para a questão da aventura, da
coleta de amostras, de ir para o laboratório e descobrir algo, isso foi a maior motivação na época de estudante. Durante a minha trajetória, sempre tive uma
convicção: estudar a Amazônia. Quando fiz o mestrado e o doutorado, fiz em Belém pela falta de possibilidade de fazer fora e estudar a região. Em 2002,
prestei concurso para a geologia e ingressei na Universidade.
BR – De que maneira o ambiente da Universidade teve influência para vocês seguirem adiante com a pesquisa?
Ândrea – Quando você se dedica a uma determinada área, no meu caso a Genética de Populações Humanas e Médicas, começa a ler artigos, livros, assiste
à palestra daquele que é o ícone na sua área, acaba se apaixonando ainda mais. Esse contato acadêmico acaba influenciando a rota, o direcionamento que você
quer dar para sua vida. Sempre tive em mente que gostaria de fazer pesquisa, nunca pensei em ficar atrás de uma mesa, fazendo algo rotineiro. Gosto de coisas
dinâmicas, de poder viajar para campo e conhecer as populações. Entender um pouco a cultura, a dispersão demográfica, a epidemiologia daquela região, para
contribuir de alguma forma
Luci – A Universidade sempre me estimulou a fazer pesquisa, entretanto, sempre procurei trabalhar em laboratórios produtivos cientificamente, e esse
fato foi fundamental para que eu sempre me sentisse incentivada a aprender e publicar cada vez mais.
Pedro – O Instituto de Geociências sempre teve uma atmosfera carregada de ciência, de pesquisa. Esse foi o meu mundo universitário desde a graduação.
Aqui você é aluno de professores que fazem pesquisa. Você tem acesso aos livros – que têm o conhecimento estabelecido – mas também tem acesso à atividade de
campo para que você gere o conhecimento que um dia estará nos livros. Isso coloca o aluno como protagonista, alguém capaz de produzir o conhecimento.
BR – Falem um pouco mais sobre o projeto de pesquisa em que vocês atuam no momento?
Ândrea –Trabalhar com Genética de Populações Humanas e Médicas é entender um pouco a dinâmica de origem do homem. Hoje, você consegue saber quais as
doenças genéticas que estão presentes na Amazônia em função da sua ocupação miscigenada. O que eu gosto, nesse trabalho, é que eu conto a história das
populações, mas pelo DNA. É preciso entender que o genoma humano nada mais é do que um livro que tem seus códigos próprios para decifrar, é disso que eu
gosto.
Luci – Atualmente, trabalho em alguns projetos científicos financiados pelo CNPq e pela FAPESPA, sendo o gerenciamento costeiro o foco principal. A
área de abrangência é o litoral paraense e maranhense e as três linhas de pesquisa são: Gerenciamento Costeiro Integrado; Hidrodinâmica e Morfodinâmica em
praias e estuários; Uso e Ocupação Territorial em praias e bacias hidrográficas.
Pedro – Hoje, o foco da minha pesquisa é interpretar os dados de sensores remotos, que estão a bordo de satélites em torno da terra. Ou seja, como
os satélites enxergam os manguezais e, a partir daí, quais são as propriedades que eu posso extrair dessas imagens: densidade, biomassa, extensão em área que
eles ocupam. Eu trabalho com esse enfoque de aquisição de dados espaciais com validação de dados em campo. De que forma o clima, a temperatura da atmosfera,
a variação do nível do mar têm afetado os ambientes costeiros.
BR – O que poderia ser feito para incentivar a curiosidade e o interesse do público infanto-juvenil pela ciência?
Ândrea – É aproximar a sociedade daquilo que é desenvolvido dentro da universidade. É levar a sala de aula até o Ensino Médio, levar o resultado de
pesquisa, enfim, é sair dos muros da universidade. Nós, professores, técnicos, pesquisadores, não sabemos como chegar à sociedade. A linguagem que
aprendemos é científica e acadêmica. Nós precisamos construir outra maneira de diálogo, que faça as pessoas entenderem o que se faz aqui dentro.
Luci – A bolsa Pibic-Júnior é uma excelente oportunidade que os alunos de escolas públicas têm para participar de projetos de pesquisa. Aumentar a
divulgação desse programa e o número de bolsas poderá despertar o interesse de um maior público infanto-juvenil.
Pedro – O maior incentivador é a leitura. No Brasil, as crianças leem muito pouco. É preciso desenvolver um programa que leve a universidade ao
Ensino Fundamental e Médio para demonstrar a carreira científica, que é extremamente atraente. Hoje, as crianças têm contato com um grande conteúdo de
geologia, mas não têm viagens de campo. Esse despertar, desde pequeno, é o que falta para peneirar novos talentos.
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