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ENTREVISTA
UFPA é pólo de conhecimento científico na AmazôniaHoje, o desafio é formar pesquisadores capazes de transformar Ciência e Tecnologia em riqueza social.Suzana Lopes
A Amazônia precisa de mais doutores. Foi o que constataram pesquisadores da Academia Brasileira de Ciência (ABC). A região abriga atualmente 2.800 doutores, um número inferior ao mínimo proposto pela ABC, que é de 4.200, para um efetivo desenvolvimento científico. Em entrevista ao BEIRA DO RIO, o Prof. Dr. Roberto Dall’Agnol, atual Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Pará, reflete sobre os esforços da UFPA para mudar esse cenário, intensificando e consolidando, cada vez mais, a produção científica na região. Atualmente, a Universidade conta com mais de 40 programas de pós-graduação, laboratórios, grupos de pesquisas, redes de cooperação interinstitucional, mas ainda não consegue responder a todas as demandas que a Amazônia oferece. “Há um paradoxo: de um lado, o esforço enorme de crescer e buscar respostas e, de outro, uma demanda infinita”, afirma Dall’Agnol. Beira do Rio – Como está o panorama da produção científica na Amazônia? Roberto Dall’Agnol – Se fizermos uma revisão histórica, há 30 anos, a Universidade Federal do Pará tinha dois cursos de pós-graduação que funcionavam precariamente, não possuía nenhuma tradição de pesquisa, tampouco uma ação diferenciada nessa área. Contavam-se nos dedos os doutores da Universidade, que eram tão raros como hoje ter um prêmio Nobel no país. Nesses últimos trinta anos, houve um esforço enorme de transformar essa situação e hoje a realidade da Universidade é completamente diferente. Nós temos, atualmente, 42 programas de pós-graduação, pois tivemos mais três aprovados, recentemente, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), os mestrados em Artes – o primeiro na Amazônia; em Medicina Veterinária, em Castanhal, e em Recursos Naturais da Amazônia, em Santarém; estes constituindo os primeiros cursos stricto sensu nestes dois campi, consolidando a política da UFPA de expandir a pós-graduação para o interior do Estado. Além disso, tivemos a aprovação de dois novos doutorados: em “Ensino Superior em Ciências e Matemáticas” e em “Ciência Animal”. Este, de caráter multi-institucional, em colaboração com a UFRA e a Embrapa. Completamos, assim, 19 programas de doutorado. Hoje, nós temos um universo de 2.250 alunos na pós-graduação. Imagina o que isso significa, em termos de oportunidade, para os jovens da região? E muitos deles vêm do interior, de estados vizinhos e até de outras regiões. A Universidade se afirmou como um pólo de conhecimento científico voltado para a região, porque os nossos desafios são regionais. É evidente que nós não conseguimos responder a todos os questionamentos científicos que são colocados, nós continuamos fragilizados em termos do volume de demandas que a Amazônia oferece. Há um paradoxo: de um lado, o esforço enorme de crescer e buscar respostas, e, de outro, uma demanda infinita. BR – Em que áreas do conhecimento a UFPA já desenvolve estudos de ponta e é referência? RD – Nosso Instituto de Geociências tem um nível de produção científica semelhante ao dos melhores centros de pesquisa nacionais, tornando-se referência na mídia nacional e sendo respeitado como tal. Estamos nos firmando, cada vez mais, na área de Ciências Biológicas, que conta com seis programas de pós-graduação. Cabe destacar, também, a área da Tecnologia, em que foram criados vários programas de pós-graduação: dois doutorados e vários mestrados. Na área de Ciências Agrárias há vários programas sendo desenvolvidos: Ciência e Tecnologia de Alimentos, Agricultura Familiar, Agriculturas Amazônicas e o curso de Ciência Animal, que conseguiu aprovar o primeiro curso de doutorado. São cursos importantes para criar uma base de pesquisa em agricultura e pecuária na região. E isso a Universidade faz associada à Embrapa, ao Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), à Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e a outras instituições, utilizando os recursos humanos qualificados existentes nessas instituições. BR – O que é preciso fazer para que a ciência na Amazônia se desenvolva mais? RD – O importante é ter competência para formar mestres e doutores na região, porque o desenvolvimento científico e tecnológico está muito ligado à formação de massa crítica. Ao formar doutores, estamos formando pessoas com maturidade para desenvolver projetos e criar grupos de pesquisa, agregar novos pesquisadores, montar laboratórios, atrair recursos através de projetos. Eu não quero ser simplista e dizer que a presença de doutores, por si só, vai mudar a realidade, mas é evidente que sem Ciência e Tecnologia não há nenhuma alternativa econômica, a não ser a dependência. Na prática, para a região romper com esse ciclo tradicional de ocupação e devastação e criar novas alternativas, ela precisa ter muito mais gente pensando a região, buscando alternativas, valorizando os produtos regionais. Tem que ter, também, medidas políticas. Se você criar Ciência e Tecnologia sem a preocupação de transformar isso em riqueza social, irá reproduzir internamente modelos externos, de dependência e desigualdade social. BR – A CAPES tem dois projetos para o desenvolvimento da ciência: o Programa Nacional de Pós-Graduação (PNPG) e o Acelera Amazônia. O que eles já proporcionaram para a nossa região? RD – O PNPG contribuiu por colocar em destaque as desigualdades regionais da pós-graduação brasileira e se propor a superá-las. O Programa Acelera Amazônia, atualmente englobado no Novas Fronteiras, estimulou a realização de cursos de mestrado e doutorado interinstitucionais (Minter e Dinter) e criou uma versão regional do Programa de Cooperação Acadêmica (PROCAD), que são maneiras de acelerar a formação de recursos humanos na região e, em médio prazo, contribuir para a criação de novos cursos de pós-sgraduação. A idéia é formar, no menor prazo, um maior número de profissionais. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) tem colaborado ampliando de modo muito expressivo o número de bolsas de mestrado e doutorado para os programas de pós-graduação da Amazônia. BR – Como a Universidade vem trabalhando a interdisciplinaridade? RD – A UFPA tem ampliado sua atuação em áreas interdisciplinares. Um indicador claro disso é a expansão, nos últimos anos, dos programas de pós-graduação da grande área Multidisciplinar da CAPES. O programa de mestrado e doutorado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, oferecido pelo NAEA, é um dos programas interdisciplinares mais antigos e tradicionais de nossa Instituição. O programa de Educação em Ciências e Matemáticas, vinculado ao NPADC, criado em nível de mestrado em 2002, teve sua proposta de doutorado aprovada neste ano. |
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