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Campus de Marabá cria sistema de monitoramento de casas alagadas
As autoridades e a comunidade poderão acompanhar pela internet a evolução do impacto na Velha Marabá e planejar melhor as ações
Walter Pinto
FOTO: Arquivo do pesquisador
A Marabá Pioneira ficou quase totalmente debaixo d'água na enchente de 1997, quando o rio atingiu a cota de 86,11m

Quando o comerciante maranhense Francisco Coelho da Silva implantou um entreposto comercial, em 1898, na confluência dos rios Tocantins e Itacaiúnas, estava lançando as bases do que viria a se tornar o principal município do sudeste paraense. Marabá se desenvolveu a partir da agropecuária e do extrativismo de diferentes produtos, entre as quais borracha, castanha-do-Pará, diamante, ouro e ferro.

Com o passar dos anos, a cidade se expandiu para outras áreas, mas o núcleo pioneiro inaugurado por Francisco Coelho da Silva continua densamente povoado, apesar de sujeito às enchentes sazonais, todas as vezes que o volume de água do rio Tocantins sobe acima da cota de 72 metros. Anualmente, o Governo Federal presta auxílio aos moradores vítimas das enchentes, mas a prefeitura local não dispõe de um cadastro multifinalitário com informações sobre os habitantes daquela área pioneira, o que prejudica bastante o planejamento urbano.

Logo que chegou a Marabá, a professora Leila Weitzel Coelho da Silva, mestre em modelagem computacional pela UERJ, percebeu que poderia contribuir para reduzir a carência de informações sobre a chamada Marabá Pioneira e, assim, ajudar a prefeitura a desenvolver uma estratégia de planejamento urbano, com otimização do socorro às vítimas das enchentes e economia de custos. Professora do curso de Sistema de Informação do Campus da UFPA, em Marabá, pensou em um projeto que integrasse a tecnologia de banco de dados geográfico e o cadastro multifinalitário para mapear a população impactada pelas enchentes conforme o crescimento gradual das águas.

Trabalhando com uma equipe formada pelos estudantes Gardel Souza, Danilo Costa Luis, Rangel Filho e Armanda Ribeiro e sem qualquer tipo de financiamento, a pesquisadora concluiu, ao final de 2007, a primeira etapa do projeto, que resultou na elaboração do Sigma, um sistema de informações geográficas para monitoramento de áreas de risco. Foi um trabalho árduo, realizado durante todo o transcorrer do ano, que precisou superar algumas dificuldades, uma delas, porém, mostrou-se instransponível, apesar do prefeito e do vice-prefeito de Marabá declararem que gostaram muito do sistema, o projeto não conseguiu nenhum respaldo junto à prefeitura.

A equipe trabalhou com um mapa vetorial de ocupação do espaço urbano, de 1999. Foi necessário transformar sua linguagem para torná-lo compatível com o software livre Spring, utilizado pelo projeto, e possibilitar a identificação das coordenadas geográficas de cada unidade habitacional da região pioneira. O banco de dados é gerenciado pelo software PostgreSQL/PostGIS, que tem capacidade de armazenar e recuperar objetos geográficos.

Indústria da enchente é incentivada

 

A maior enchente em Marabá ocorreu em 1980, quando as águas do rio Tocantins subiram 17,42m acima do normal. Em tais condições, a prefeitura decreta estado de calamidade e recebe apoio do Governo Federal na forma de incentivo às famílias atingidas pelas cheias. As famílias são abrigadas em alojamentos improvisados e recebem cestas básicas, bujões de gás e materiais para a construção de casas em outras áreas. Trata-se de uma operação de socorro que despende somas consideráveis de recursos.

O sistema de monitoramento, elaborado no campus de Marabá, pode ajudar a prefeitura a planejar previamente as ações a serem empreendidas e auxiliar no gerenciamento dos recursos. Pode ser também uma efetiva ferramenta para eliminar um problema que existe, de maneira informal, na velha Marabá: a indústria da enchente, que utiliza a catástrofe como meio de vida. Os moradores sobrevivem do incentivo repassado pelo Governo Federal.

A professora Leila Wetzeil toma como exemplo uma hipotética casa velha, construída há alguns anos, por falta de fiscalização, na área de risco. O proprietário mora atualmente em outro bairro, em casa construída com o material doado pelo governo. A velha casa serve para aumentar o seu rendimento por meio de aluguel. Em época de enchente, o inquilino que estiver morando nela, receberá incentivos que serão utilizados na construção de casa fora dali. Assim, todos os anos, a velha casa terá sempre novos inquilinos. “O sistema que criamos busca mapear efetivamente esse problema. Porque, se houver um cadastramento dos moradores por residência, ficará mais fácil monitorar as casas”, observa.

Prefeitura não tem informações sobre Marabá Pioneira

 
A Marabá Pioneira ficou quase totalmente debaixo d'água na enchente de 1997, quando o rio atingiu a cota de 86,11m

Os pesquisadores esbarraram-se em uma outra dificuldade: a ausência do cadastro multifinalitário com informações reais sobre os moradores da área. “A prefeitura, ao contrário de outras administrações municipais da região, ainda não possui o cadastro atualizado”, informa a coordenadora. A equipe partiu, então, para a elaboração de um banco de dados, quantificando os moradores por unidade habitacional segundo suas especificidades (adultos, crianças, idosos, portadores de necessidades especiais, mães lactantes, recém-nascidos, jovens em idade escolar, entre outros dados). Os dados deveriam permitir a realização de várias formas de consultas, possibilitando ao gestor público planejar estratégia de ajuda e remoção dos indivíduos afetados conforme as necessidades específicas de cada família. Mas o trabalho corpo-a-corpo não pode ser realizado pela falta de financiamento para pesquisa em campo. A solução foi partir para a simulação por meio de dados sintéticos quantitativos sobre os moradores partir das dimensões das casas.

A fase seguinte foi a de modelagem do banco de dados, na qual foram eleitos os itens considerados mais importantes e as informações que se pretendia extrair do banco de dados. Em seguida, a equipe juntou o mapa da cidade ao banco de dados. O trabalho foi concluído com a criação de um sistema de informação que fez a interação das duas partes. “Trabalhamos muito e o Sigma ficou pronto. Nossa intenção era produzir um sistema para todos os distritos do município, mas como só Marabá Pioneira está sob impacto das enchentes, nos preocupamos inicialmente apenas com aquela área”, explica Leila Weitzel.

A proposta também contemplava a construção de um sistema para a web, mas não foi possível cumprir com esse objetivo dentro do prazo de um ano. Por isso, o Sigma nasceu como um sistema isolado. Porém, a experiência adquirida pelos pesquisadores, facilitará a adaptação do sistema para a internet, um dos objetivos do projeto para 2008. Quando a segunda etapa for concluída, os moradores de Marabá poderão monitorar o nível das águas pela internet.

Na segunda etapa, o projeto contará com a participação de nove estudantes. O objetivo será inserir no sistema as áreas de educação, saúde e comércio, além da construção de um sistema paralelo com informações turísticas.

Pesquisadora critica falta de apoio

O curso de Sistema de Informação do Campus de Marabá começou suas atividades em 2002. Possui apenas quatro professores efetivos. Atualmente, dispõe de dois laboratórios e, em breve, contará com um terceiro, em fase de construção. A primeira turma graduou-se em 2006. As pesquisas na área estão apenas começando, mas os professores sentem as dificuldades inerentes ao isolamento em relação ao grande centro. Em Marabá, há uma enorme carência de tecnologia, o que torna o trabalho dos pesquisadores muito mais importante e necessário.

Há quase três anos em Marabá, Leila Weitzel levou para o curso a experiência de onze anos de trabalha na área de inteligência artificial. Sua dissertação de mestrado simulou o raciocínio médico no diagnóstico da meningite, por meio de um sistema que, ao ser alimentado com dados, classifica e tipifica o tipo da doença. Como bolsista pesquisadora do CNPq, participou do projeto CardioEducar, pela Coppe, atuando no desenvolvimento de um sistema que simula o raciocínio médico no diagnóstico de infarto agudo do miocárdio. Como bolsista da Fundação de Pesquisa da Coppe, realizou pesquisa na área de energia e meio ambiente, desenvolvendo um módulo de adaptação de um sistema francês de energia à energia renovável. Ela faz críticas ao atual modelo de apoio à pesquisa no Brasil que privilegia apenas pesquisadores doutores e à diferença de tratamento entre licenciaturas, engenharias e bacharelados. “O Reuni privilegia as licenciaturas, as engenharias recebem apoio de outros programas, mas para o bacharelado, como é o caso do nosso curso, não há nenhum tipo de programa específico”, afirma.

 
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