Beira do Rio
 
MEMÓRIA
Centro guarda raridades da Amazônia
Centro de Memória da Amazônia faz um ano de criação e abre acervo
por Cristina Trindade

FOTO:MARI CHIBA
O Centro de Memória da Amazônia guarda documentos que datam dos séculos XVIII e XIX do arquivo morto do TJE
Assinatura de um convênio entre a Universidade Federal do Pará e o Tribunal de Justiça do Estado (TJE), em janeiro de 2007, assinalou a criação do Centro de Memória da Amazônia (CMA). A parceria garantiu para a UFPA a cessão e guarda da documentação de natureza civil e criminal que integrava o arquivo inativo do TJE. Um ano depois, a coordenação do Centro comemora os serviços que já estão sendo oferecidos à comunidade, como a disponibilização de parte do acervo que abrange documentos desde os finais do século XVIII até 1970.

Após um trabalho de higienização e organização, processos referentes a esse período histórico sobre assuntos variados da sociedade paraense, como questões religiosas e familiares, transações comerciais, conflitos fundiários, migração e imigração na Amazônia, já podem ser consultados por pesquisadores e interessados em conhecer a memória paraense.

Entre os processos da área civil que compõem o acervo está o de investigação do assassinato de Severa Romana - uma moça casada com um soldado e morta, grávida, por outro que a assediava, no ano de 1900.

O Centro de Memória está instalado no prédio que abrigava a Gráfica da UFPA. Um projeto arquitetônico de adequação do espaço já foi elaborado e as obras devem iniciar no mês de maio. Atualmente, conta com nove bolsistas de história e duas especialistas em arquivo na organização do material. Após a reforma, o Centro também deve se tornar um espaço para educação patrimonial. “Por meio de programação artístico- cultural e visitas monitoradas, vamos atrair estudantes de ensino fundamental e médio, porque não queremos ser mais um arquivo no Pará, mas um centro de formação de cidadania a partir do conhecimento do passado”, afirma o coordenador Otaviano Júnior.

Entre os projetos que serão desenvolvidos no Centro está o da compra dos arquivos digitalizados de documentos referentes ao período da inquisição no Pará, que se encontram na Torre do Tombo, em Portugal. “A inquisição foi intensa no Pará e modificou o cotidiano paraense. Mas o pesquisador interessado no tema tem que ir para fora do país atrás de documentos”, lamenta o historiador Décio Gusmão, que divide a coordenação do Centro com Otaviano. A história dos bairros de Belém resgatada a partir da história oral é outro projeto que está sendo formatado. Deve começar junto aos moradores do bairro do Reduto, onde fica localizado o prédio do Centro construído por Augusto Sidrim, em 1927.

Acervo remonta à 1ª administração

Suely Palheta: “Já avançamos muito”

Os primeiros estudos para se criar um Sistema de Arquivos para a UFPA e organizar o setor existente desde a sua criação foram feitos em 1985. Em 1996, dentro do programa Nova Universidade, do MEC, desenvolveu-se o projeto “Sistema de Arquivos da UFPA implantação e implementação”. A unidade passou a desenvolver um trabalho com técnicas arquivísticas de forma a estruturar o sistema de comunicação e arquivos, dinamizando e padronizando as atividades. “Ainda não possuímos o espaço ideal, mas já avançamos muito no trabalho de resgate da documentação histórica e nosso acervo remonta a primeira administração da UFPA”, informa Suely.

 

 

Todo cuidado é pouco com a memória

Preservar a memória da Universidade por meio dos documentos produzidos ao longo dos anos na instituição, não tem sido tarefa fácil para o Arquivo Central. Um trabalho de conscientização está sendo realizado junto aos gestores e servidores das unidades acadêmicas e administrativas da UFPA no sentido de sensibilizá-los não só quanto à preservar os documentos, mas também planejar a criação de espaços adequados para guardá-los.

A atuação junto às unidades que sediam os arquivos setoriais também implica numa mudança de concepção sobre o papel do Arquivo. “Não podemos continuar sendo vistos como um depósito de papéis, porque atuamos no sentido de resgatar o valor, a função social de um documento que pode servir de apoio nas atividades acadêmica e administrativa e também como um instrumento de cidadania. Necessitamos, assim, da parceria das unidades para preservar os documentos desde a criação, tramitação e destinação final”, afirma a bibliotecária Suely Matias Palheta, diretora do Arquivo Central.

O processo da morte de Severa Romana
O trabalho, iniciado no ano passado junto aos arquivos setoriais, leva orientação quanto aos procedimentos de classificação dos documentos, baseado nas novas técnicas arquivísticas. “A Arquivologia é uma ciência que estuda os documentos por meio de suas fases. Cada documento tem um ciclo vital, o que compreende a fase corrente, a fase intermediária e a fase permanente, chamada de histórica ou comprobatória. A temporalidade de um documento é determinada pelo teor do assunto e não pela data como muitos pensam. Sendo assim, todo oficio, portaria, memorando, resolução, atas de reuniões de colações de grau, enfim, tudo que é produzido na área administrativa e acadêmica é um documento.E é único, perdeu, jogou fora não há mais como recuperar”, alerta Suely.

O Brasil tem carência de profissionais em arquivologia. Em todo o país existem apenas 12 cursos de graduação. O Pará não possui nenhum curso. O Arquivo Central da UFPA conta com apenas cinco profissionais especializados na área para atuar em todos os campi. “A demanda é muito grande. A solução tem sido a inclusão de um módulo sobre arquivos nos cursos de capacitação de recursos humanos”, informa Suely.



 
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