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Livro revive o drama da cólera em Belém

Walter Pinto

Fotos e Ilustração: Walter Pinto

Entre as décadas de 30, 40 e 50 do século XIX, a população da cidade de Belém sofreu uma drástica redução. Mal saído do morticínio cabano, o povo enfrentou, logo em seguida, grandes epidemias de febre amarela, varíola e cólera. A falta de condições sanitárias favorecia o ingresso das epidemias, que vitimaram, sobretudo, a população mais pobre, os habitantes das freguesias da Campina e Trindade.

À véspera da invasão de cólera, o belenense já tinha enfrentado, pelo menos, uma epidemia e todos tinham perdido parente na guerra da Cabanagem, vinte anos antes, observa a antropóloga Jane Felipe Beltrão, coordenadora da área de Antropologia do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFPA.

Em maio de 1855, a cólera chegou a Belém a bordo do Deffensor, galera portuguesa que partiu do Porto, com excesso de passageiros e carga para o comércio local. Durante 30 dias de viagem sobre o Atlântico, os passageiros - colonos portugueses que prestariam serviços à Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas - foram acometidos por uma estranha moléstia, registrando-se a morte de 36 deles. Era o início da saga brasileira da cólera, "que assolou o Pará e depois atingiu a Bahia, em junho, e o Rio de Janeiro, em julho, para desespero da corte", assinala a antropóloga.

Durante dez meses, de maio de 1855 a fevereiro de 1856, Belém foi devassada pela doença. Ao todo foram 1.443 vítimas da epidemia, segundo os registros oficiais, todas sepultadas no cemitério da Soledade. Mas o número real foi superior, pois houve mortes que não foram registradas, como as de muitos escravos, enterrados em cemitério de fundo de quintal.

A história da epidemia na capital paraense em 1855 acaba de vir a público por meio do livro "Cólera, o flagelo da Belém do Grão-Pará", de Jane Felipe Beltrão, edição conjunta UFPA/Museu Goeldi. Em 354 páginas, a autora, mestre em Antropologia e doutora em História, revela o terror vivenciado pela população, o drama dos médicos da província diante do mal até então desconhecido, os parcos recursos materiais e financeiros disponíveis, as formas de tratamento, as polêmicas geradas, o papel da imprensa durante a epidemia e o reconhecimento da medicina popular.

Programa - A possibilidade de fazer o estudo surgiu com a epidemia de cólera de 1991 em Belém, quando o Hospital Universitário João de Barros Barreto formulou o programa interdisciplinar "A epidemia de cólera e a qualidade ambiental no Estado do Pará: um estudo integrado". Jane Beltrão aceitou o convite da direção do hospital para trabalhar com os médicos na antiga prática adotada de visita aos doentes em domicílio. Havia a possibilidade de outras pessoas de um mesmo recinto estarem contaminadas.

"Os dados sociais referentes à epidemia alimentaram o programa sobre o comportamento dos pacientes, dos parentes e de seus vizinhos, bem como auxiliaram a equipe nas tarefas de ação para saúde", relata. Embora o número de vítimas fosse crescente e os enfermos rapidamente se recuperassem, muitas vezes eles relutavam em deixar o hospital.

Buscando entender as causas desse comportamento, descobriu-se que a representação da doença parecia presa a antigas estruturas. Pacientes e parentes contaram histórias nas quais apresentavam imagens terríveis da epidemia ocorrida há mais de um século. Perto dos horrores de 1855, a cólera de 1991 foi considerada branda, mas reacendeu a memória dos que sabiam, por antigos relatos, dos horrores de uma época em que a sangria era recurso usual da medicina vigente e que o preconceito de familiares e vizinhos, muito contribuiu para aumentar o número de mortos.

Empreendendo pesquisas no Arquivo Público do Pará, no Arquivo Geral da Marinha, no Arquivo Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros e no Arquivo Nacional do Tombo, em Portugal, Jane Beltrão lançou mão da Antropologia e da História para recriar a saga da epidemia que traumatizou parte da população, ainda que um século tenha se passado.

Na metade do século XIX, o Pará tinha em torno de 23 médicos para uma população de 247.248 habitantes. Havia apenas um médico para cada grupo de 10.750 habitantes. A cólera não foi rapidamente identificada, pois muitos dos seus sintomas foram confundidos com envenenamento. Enquanto os médicos discutiam a identidade da moléstia, as mortes foram se sucedendo em velocidade espantosa.

Coube ao médico Américo Santa Rosa assumir o diagnóstico terrível: cholera-morbus epidêmico! Santa Rosa se notabilizou na medicina paraense pela qualidade de seus diagnósticos e pela cerrada oposição que fez ao tratamento com sangria, que tinha em Francisco da Silva Castro, médico presidente da Comissão de Saúde Pública do Pará, um defensor ferrenho.

A prática da sangria consistia em seccionar a veia do doente e fazer sangrar em torno de 400 ml. De fato, a doença deixava o sangue mais grosso, com intumescimento da veia, mas diante do quadro de debilidade em que os pacientes se encontravam, era um risco de vida, como argumentava Santa Rosa. Para ele, se o paciente não morresse de cólera, fatalmente morreria da sangria. Apesar da polêmica, a prática foi bastante empregada na cidade e não somente pelos médicos, mas também por sangradouros e barbeiros.


Medicina popular foi importante na cura de doentes

Os portadores de cólera apresentam, entre outros sintomas, a pele fria, azulada e enrugada; os olhos, entreabertos e encovados cercados por círculo escuro; nariz entupido com coriza; fisionomia decomposta; sangramento dos dentes; boca fétida; garganta seca; estômago sensível exalando arrotos e provocando vômitos contínuos de comidas com aparência de água de arroz; ventre com cólicas e diarréias constantes com fezes avermelhadas ou brancas; gotejamento da urina; unhas roxas; pernas fletidas com cãibras. Diante deste quadro, os pacientes mostravam-se altamente desidratados.

Os médicos se desdobravam no atendimento aos pacientes. Muitos foram atendidos na Santa Casa de Misericórdia, mas na maioria dos casos ficaram mesmo nas suas casas. Muitos morreram sem nenhum atendimento. Houve casos de canoas em que morreram todas as pessoas a bordo, ficando as embarcações à deriva.

Segundo os jornais da época, a cólera em Cametá foi maior que em Belém. Noticiavam que muitas pessoas ficavam jogadas no meio da rua por não haver coveiros suficientes para enterrar tantos mortos. Lá morreram de dez a quinze pessoas por dia, principalmente entre os meses de maio, junho e julho, quando a epidemia atingiu o auge. Em visita de solidariedade àquele município, o presidente da província, Ângelo Custódio, contraiu a doença, vindo a falecer antes mesmo de regressar a Belém.

Apesar da alopatia ter sido oficialmente o tratamento adotado por decreto imperial, os homeopatas conquistaram a confiança da população, com um procedimento que considerava o doente e não a doença. Para o enfermo, a tradução dessa formulação era solidariedade acompanhada de respeito. Contra os perigos da sangria, os homeopatas recomendavam a hidratação dos doentes.

Outro grupo que se impôs frente à dominação da alopatia era composto pelos profissionais de saúde popular - rezadores, raizeiros, curadores e benzedeiras - os quais, empregando a experiência quotidiana, salvaram muitos doentes.

Os jornais Treze de Maio e Diário do Grão-Pará, durante a vigência da epidemia, foram praticamente transformados em boletins médicos, trazendo em suas páginas relatos de casos e, principalmente, receitas de médicos e de populares. Essas edições eram copiadas de maneira resumida pelo povo do interior do Pará e os ensinamentos praticados onde houvesse doentes.

Os jornais também funcionaram como tribunas para os médicos esgrimirem vaidades, conhecimentos e recomendações. A polêmica entre os grupos fez se ouvir na metrópole. Através do Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, o médico Marques de Carvalho ironizou os colegas paraenses: em lugar de polemizarem sobre a origem da cólera, eles deveriam tratar dos doentes antes que fosse tarde demais.

Felizmente, no final de fevereiro de 1886, a epidemia praticamente desapareceu, deixando um saldo de 1.434 mortos em Belém. Voltaria em 1991, mas a Campina e a Trindade, agora saneados, seriam poupados. O cenário, desta vez, seria os bairros do Telégrafo, Guamá, Benguí, Sacramenta, Pedreira e todos os demais localizados nas áreas de baixada da cidade.