UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

ÍNDICE

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO

DEPARTAMENTO DE PESQUISA

 PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSAS DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA – PIPES/PIBIC  

RELATÓRIO TÉCNICO - CIENTÍFICO

 

Período :  agosto / 2000   a  Julho / 2001   -   FINAL

 

IDENTIFICAÇÃO DO PROJETO : PPQ-CLA-0490/1995

 Título do Projeto de Pesquisa: O Atlas Geo-sociolingüístico do Estado do Pará.

 Resolução CONSEP OU NÚMERO DE PORTARIA DE APROVAÇÃO: 2160/95

 Nome do Orientador: Abdelhak Razky

 Titulação do Orientador: Doutor

 Departamento : DLLE.

 Unidade: CLA.

 Laboratório: Laboratório de Ciências da Linguagem

 Título do Plano de Trabalho : A Pronúncia do Fonema /s/  e suas Variações no Português do Município de Bragança

 Nome do Bolsista: Arlon Francisco Carvalho Martins

                         Tipo de Bolsa: CNPq

Nome do Bolsista

Arlon Francisco Carvalho Martins

TÍTULO DO PLANO DE TRABALHO

A Pronúncia do Fonema /s/  e suas Variações no Português do Município de Bragança

 

INTRODUÇÃO

JUSTIFICATIVA

OBJETIVOS

MATERIAIS E MÉTODOS

RESULTADOS

INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS

PUBLICAÇÕES

CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PARECER DO ORIENTADOR

RODAPÉ

 

 

 

 

INTRODUÇÃO 

É comum ouvir dizer que o Paraense fala chiando, traço que tornaria nosso dialeto bem característico, a exemplo do dialeto carioca. Mas essa característica não é absoluta, existe na  realidade uma grande flutuação em relação à pronúncia do /s/ pós-vocálico em nosso Estado, e essa flutuação tem causas tanto internas (estruturais) quanto externas (sociais).

Neste trabalho documentamos as diferentes realizações do /s/ pós-vocálico no português falado no Município de Bragança1 e tentamos descrever as regularidades que determinam ora uma ora outra realização: variantes alveolares [s]/[z], palatais [S]/[Z], a aspiração [h] e o zero fonético (Ø). Temos,  assim, seis realizações do /s/ pós-vocálico:

(1)...a mim mehmu purque u erru meu meZmu...  “a mim mesmo porque o erro é meu msmo”

(2)...muitas coisaØ elih num num dexu participá... “muitas coisas eles não não deixam participar”

(3)...deSta forma aS pessoaZ nuStem procuradu...   “desta forma as pessoas nos têm procurado”

(4)...aSminhas cuStaS... mah nao qui tivessi u apoiu...  “as minhas custas...mas não que tivesse o apoio”

(5)... colocamuh la a as fotografiaz da da iStação... “colocamos lá a as fotografias da  da estação”

(6)...vindiu uZ abacateØ...  “vendiam os abacates”

Como dissemos mais acima, a realização variável do /s/ pós-vocálico deve-se tanto a fatores lingüísticos  quanto sociais, mas para compreender melhor esse processo é preciso levar em consideração também alguns aspectos históricos da colonização por que  passou o município em questão e que determinaram, de certa forma, o seu perfil lingüístico. Assim, tentamos identificar, descrever e analisar os principais fatores envolvidos neste fenômeno.

A análise proposta neste trabalho segue os pressupostos teórico-metodológicos da Teoria da Variação (Labov apud  Monteiro, 2000). Pretende-se descobrir que fatores lingüísticos e sociais estão interferindo na realização variável do /s/ pós-vocálico e em que medida estes fatores estão relacionados entre si, no sentido de favorecer ou inibir cada uma das seis ocorrências possíveis apontadas acima.

Esperamos, deste modo, poder contribuir para o conhecimento da língua portuguesa falada no Pará, somando informações ao conjunto das pesquisas realizadas sobre o Português Brasileiro no que diz respeito ao assunto em discussão.

ÍNDICE 

  

JUSTIFICATIVA

A língua portuguesa falada no Brasil corresponde a uma variedade de realizações devidas à interação cultural – e portanto lingüística – que se processou ao longo de nossa história. Levados pela necessidade de conhecer essa variedade, consideramos ser necessário investigar e analisar as diferentes maneiras como a língua portuguesa se realiza, para isso, está se empreendendo a construção de atlas lingüísticos regionais  pelo país, entre os quais está o Atlas Geo-Sociolingüístico do Estado do Pará. O trabalho  aqui realizado está vinculado a este projeto e desenvolveu uma importante atividade de pesquisa a respeito de um aspecto fonético da fala do povo bragantino (o /s/ pós-vocálico).

Infelizmente, a pesquisa dialetológica - voltada para a investigação tanto diatópica quanto diastrática - não tem merecido o reconhecimento e o apoio necessários por parte das instâncias competentes. Em todo o Brasil apenas cinco Atlas Lingüísticos foram publicados até agora,2 existem vários projetos de Atlas em andamento, inclusive um nacional (Atlas Lingüístico do Brasil –ALIB), mas dificuldades de ordem diversas têm mantido muitos desses projetos em demorado estado de espera. 

Outro problema enfrentado pela pesquisa dialetológica está relacionado ao número relativamente pequeno de estudos aprofundados sobre os dialetos brasileiros já pesquisados, muitas vezes o  material coletado está disponível mas não há uma sistematização das informações dialetais que possa oferecer um nível satisfatório de conhecimento das variantes diatópicas e diastráticas do português brasileiro. Conseqüentemente, este desconhecimento da realidade lingüística regional e nacional se reflete muito negativamente no ensino da Língua Portuguesa.

Trabalhos dialetológicos e sociolingüísticos como este, que se propôs a investigar uma particularidade da fala do Município de Bragança e ora se apresenta à comunidade acadêmica, são de grande importância não apenas pela contribuição para o andamento do  projeto de pesquisa ao qual estão  vinculados, mas sobretudo pelas informações que trazem para o conhecimento da diversidade lingüística no Brasil, particularmente no Estado do Pará.

 

ÍNDICE

 

   

        

OBJETIVOS

 O objetivo geral deste  projeto era identificar, descrever e analisar as variações do fonema /s/ em ambiente posvocálico no português do município de Bragança a partir da fala de 21 (vinte e um) informantes de sexo masculino. Por acreditarmos que a variação e a mudança lingüísticas são  influenciadas por aspectos tanto sistêmicos (internos à própria língua) quanto externos  (devidos a pressões sociais), utilizamos a metodologia da pesquisa sociolingüística  no tratamento dos dados, desde o levantamento, passando pela triagem, até a análise probabilística.

Todos os contextos em que o /s/ pós-vocálico ocorreu foram transcritos foneticamente de acordo com o IPA3 (Alfabeto Fonético Internacional). Outro passo importante  alcançado foi a codificação dos dados no programa varbrul.4 Concluídas as codificações, procedeu-se à análise probabilística dos dados que nos forneceu os resultados estatísticos (os pesos relativos) das variáveis consideradas relevantes pelo programa.

A partir desses resultados foi então possível identificar e descrever as regularidades que determinam as diferentes realizações do /s/ pós-vocálico de acordo com os contextos lingüísticos e sociais em que ocorrem.

 

 ÍNDICE

 

 

 

MATERIAIS E MÉTODOS 

1 -DELIMITAÇÃO DO TRABALHO

Este trabalho limitou-se a estudar a fala de 21 informantes do sexo masculino, as hipóteses sociais que  levantamos visavam testar o nível de escolaridade, a faixa etária e a renda desses informantes, variáveis que se mostraram mais relevante na regra de variação; considerações a respeito da variável sexo ultrapassam os limites do presente estudo.

Foram excluídos os contextos em que o /s/ é seguido por consoantes constritivas alveolares /s/, /z/ e constritivas palatais /S/, /Z/.

(7)....a[s] [s]extas feiras ele[s] [s]aíram...

Esses contextos dificultam a percepção da realização do /s/, isto porque o som do /s/ em final de palavra assimila-se com os sons  /s/, /z/, /S/ e /Z/ em início da palavra seguinte, dificultando a percepção, uma vez que essa assimilação interfere no plano silábico, ou seja, esses fonemas em início de sílaba não se neutralizam, mantendo seu caráter distintivo, por isso assimilando o som do elemento que os antecede. Os contextos em que o /s/ é seguido pela constritiva glotal /r/ foi mantido e testado e será discutido mais adiante.

 

2METODOLOGIA

Este trabalho segue os pressupostos teórico-metodológicos da Sociolingüística Variacionista de  Labov (apud Monteiro, 2000), segundo quem, para se definir uma variável lingüística é necessário:

I –  definir o número exato de variantes;

II –  estabelecer toda a mutiplicidade de contextos em que aparece;

III –elaborar um índice quantitativo que permita medir os valores das variantes.

 Tarallo (1997, p.10) apresenta a seguinte proposta, também adotada por nós:

 IV  –  fazer um levantamento exaustivo dos dados da língua falada, para fins de análise, dados estes que refletem mais fielmente o vernáculo5 da comunidade;

V  – descrição detalhada da variável, acompanhada de um perfil completo das variantes que a constituem;

VI  –  análise dos possíveis fatores condicionadores (lingüísticos e não-lingüísticos) que favorecem o uso de uma variante sobre as outras;

VII – encaixamento de uma variável no sistema lingüístico e social da comunidade: em que nível lingüístico e social  da comunidade a variante pode ser situada;

VIII – Projeção histórica da variável no sistema sociolingüístico da comunidade.

Foi, então, segundo o modelo descrito acima, que procedemos à investigação e sistematização das regularidades responsáveis pela realização variável do /s/ pós-vocálico na fala da cidade de Bragança.

 

3 - O CORPUS

O material que forneceu os dados para esta pesquisa faz parte do corpus do Projeto Atlas Geo-Sociolingüístico do Pará (ALIPA). O levantamento dos dados foi feito a partir de entrevistas gravadas em fitas cassetes, cada entrevista tem em média 30 minutos de duração. Foram anotadas as ocorrências do fenômeno sob análise e a seguir procedeu-se à  transcrição fonética dos contextos.

Em seguida realizou-se  a codificação dos dados para serem submetidos às análises quantitativas do programa VARBRUL.6 O processamento dos dados pelo pacote de programas Varbrul nos forneceu resultados quantitativos com os pesos relativos dos fatores e elegeu os grupos de fatores mais mais significativos no processo de variação. Seis realizações diferentes foram analisadas como variantes do /s/ pós-vocálico: alveolar surda [s],  alveolar sonora [z], palatal surda [S] e palatal sonora [Z]; aspirada [h] e o zero fonético [Ø]. Assim, obtivemos um total de 5.431 ocorrências da variável /s/ pós-vocálica distribuídas em : 2872 alveolares, 1716 palatais, 581 apagamentos e 262 aspiradas.

Gráfico 1

Ocorrências das variáveis

4 - A POPULAÇÃO-ALVO

O Município de Bragança pertence a Mesorregião Nordeste  do Pará, A sede municipal tem as coordenadas 01o  03’ 05”  de latitude a Sul e 46o  46’ 10”  de longitude a Oeste de Greenwicha, e fica a 220 quilômetros de Belém;  foi fundado em 1634, e mais tarde, em 1754,  foi colonizado por portugueses. Trinta famílias açorianas foram mandadas pela Coroa Portuguesa para povoar o novo município. Em 1854 foi elevado à categoria de cidade. Atualmente,  possui uma população de aproximadamente 102.641 habitantes. O Município possui atividades basicamente agropecuárias e uma atividade pesquiera voltada para exportação, e também vem explorando o potencial turístico de suas praias litorâneas como Ajuruteua. As principais manifestações culturais de Bragança são a festa de São Benedito e a Marujada no mês de dezembro, que atrai muitos turistas para o município.

Bragança orgulha-se de seus monumentos históricos e culturais, como a igreja de São Benedito — tanto a construção do prédio quanto a confecção da imagem do Santo datam do século XVIII. Igualmente dignos de registro são a igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, a mais antiga da cidade que data também do século XVIII, o Instituto Santa Terezinha, tradicional educandário do município, e, fora da sede, em uma ilha de fronte ao litoral Brangantino, o Forte de Caeté, construído em 1614 pelos portugueses.

Atenção ainda para a Casa da Cultura e a Biblioteca , que constituem equipamentos culturais de grande importância no município de Bragança.

  

5 -  A AMOSTRA

Nossa  amostra é composta por 21 informantes do sexo  masculino, estratificados de acordo com os seguintes fatores:

Ø      faixa etária:

▪ 15 a 25 anos,

▪ 26 a 45 anos,

▪ Mais de 46 anos;

Ø       nível de escolaridade:

▪ Sem escolaridade (SE),

▪ Ensino fundamental (EF),

▪ Ensino médio (EM);

Ø      renda:

▪ Baixa,

▪ Média

 

6 – GRUPOS DE FATORES INTERNOS E EXTERNOS

1 – tonicidade da sílaba em que ocorre a variante;

2 – classe morfológica em que ocorre a variante;

3 – caráter surdo ou sonoro do segmento seguinte  vs posição da variante na palavra;

4 – modo de articulação do segmento seguinte à variante;

            5 – zona de articulação do segmento seguinte;

            6 – nível de escolaridade;

            7 – faixa etária;

            8 – renda.

 

7 -  HIPÓTESES INICIAIS

As hipóteses iniciais que nortearam a elaboração do presente trabalho são de naturezas diferentes mas estão relacionadas entre si e podem ser assim enumeradas:

1)      a realização variável do /s/ pós-vocálico é influenciada principalmente por fatores intralingüísticos, embora não exclusivamente, dentre os quais podemos citar a tonicidade da sílaba em que ocorre a variante, a classe de palavra do vocábulo, o contexto fonético seguinte, ponto e modo de articulação do segmento seguinte;

2)      a posição que o /s/ ocupa na palavra (interna ou final) parece ter um peso considerável na manutenção ou no apagamento deste segmento;

3)      os fatores sociais que operam nesse fenômeno estão relacionados à idade, ao nível de escolaridade e à renda dos informantes;

4)      além dos fatores intralingüísticos e sociais mencionados acima, parece haver também influências de caráter histórico-geográfico determinando algumas realizações do fenômeno sob análise.

 

ÍNDICE

 

 

 

RESULTADOS

Apresentadas as hipóteses levantadas para investigação, procuramos identificar a regularidade do uso das variantes – alveolares (surda e sonora), palatais (surda e sonora), aspiradas e zero, que foram ivestigadas de acordo com oito grupos de fatores (sendo cinco lingüísticos e três sociais), que passaremos a discutir mais detalhadamente agora, apresentando a freqüência de aplicação da regra e peso relativo, fornecidos pelo VARBRUL.

 

1 – GRUPOS DE FATORES LINGÜÍSTICOS

Dentre as possibilidades de condicionamento lingüístico, o programa estatístico selecionou como relevantes para a variação do /s/ pós-vocálico os seguintes grupos de fatores:

1 – tonicidade da sílaba em que ocorre a variante;

2 – classe morfológica em que ocorre a variante;

3 – caráter surdo ou sonoro do segmento seguinte  vs posição da variante na palavra;

4 – modo de articulação do segmento seguinte à variante;

5 – zona de articulação do segmento seguinte.

               

1.1 -Tonicidade da sílaba em que ocorre a variante

Este grupo de fatores é composto por dois fatores, tônico e átono, e mostrou-se bastante relevante para o apagamento e também para a ocorrência de segmentos palatais:

·        Tônico

(8)... minha operação foi trêi[z] horas i meia... “minha operação foi três horas e meia”

·        Átono

(9)... agora eu vo lê pa  ti  i[S]cutá... “agora eu vou ler pra ti escutar” 

TABELA 1 – Tonicidade da sílaba em que ocorre a variante

 

Alveolares

[s] [z]

Palatais

[S] [Z]

Aspiradas

[h]

Zero

(Ø)

 

 

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

total

Tônico

504

.48

472

.65

102

.53

22

.13

1100

Átono

2368

.50

1244

.46

160

.49

559

.62

4331

Observando a tabela acima verificamos que os contextos tônicos favorecem as variantes palatais (.65), ao passo que o apagamento é favorecido pelo contexto átono (.62). Isso evidencia que sílabas átonas estão mais sujeitas a perderem elementos de sua estrutura. Por outro lado, contextos tônicos são mais conservadores, sobretudo, ao que parece, porque a carga informativa da palavra configura-se mais na sílaba  tônica que na sílaba átona, daí porque a conservação do fonema pós-vocálico, embora como variante alveolar ou palatal.

 

1.2        -Classe morfológica do vocábulo em que ocorre a variante

A classe de palavras foi outro grupo de fatores considerado importante e se mostrou bastante significativo. Preposições e artigos favorecem as variantes palatais; numerais, artigos e preposições favorecem as variantes alveolares; conjunções favorecem a variante  aspirada, e  verbos, substantivos e adjetivos favorecem o apagamento. Observe a tabela abaixo.

Este grupo de fatores se compõe de nove fatores:

(10).... num tinha tempu di i[S]tudá... “não tinha tempo de estudar”

(11).... lá du[s] padri deu impregadu... “lá dos padres  deu empregado”

(12)... depoi[z] dissu eu voltei pra casa trabalhei mesmu duenti... “depois disso eu voltei para casa trabalhei mesmo doente”

(13)... im dozi hora[s]...eu ja tinha acabadu cum tudu... “em doze horas...eu já tinha acabado com tudo”

(14)... lá nu hospital eli[z] legaru qui num tinha...  “lá no hospital eles alegaram que não tinha”

(15)... si u pai num pretendi quem sabi u[s] filhu... “se o pai não pretende quem sabe os filhos”

(16)... u horáru qui era di sei[z] i meia ia passá par... “o horário que era seis e meia ía passar para”

(17)... ganhava bem ma[Z] dava pa sustentá minha família... “ganhava bem mas dava para sustentar minha família”

(18)... muitas festas juninaØ agora num participu festa...  “muitas festas juninas agora não participo de festa”

TABELA  2 – Classe morfológica em que ocorre a variante

 

Alveolares

[s] [z]

Palatais

[S] [Z]

Aspiradas

[h]

Zero

(Ø)

 

 

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

total

Verbo

361

.45

320

.45

10

.33

113

.76

804

Preposição

110

.60

44

.62

6

.47

10

.25

170

Advérbio

332

.46

216

.56

112

.79

31

.30

691

Substantivo

1019

.47

626

.44

31

.35

334

.69

2010

Pronome

377

.57

216

.54

40

.69

28

.24

661

Artigo

213

.58

101

.60

17

.58

20

.24

351

Numeral

198

.62

55

.58

6

.50

8

.17

267

Conjunção

143

.43

76

.64

38

.84

15

.26

272

Adjetivo

118

.58

62

.35

2

.27

22

.65

204

Esse grupo de fatores mostrou-se muito importante para a manutenção e apagamento das variantes. Com a observação da tabela uma de nossas hipóteses é confirmanda. Como já foi dito anteriormente, a marcação de plural é mais presente nos determinantes (artigos, numerais, preposições, pronomes e conjunções). Por outro lado o apagamento é mais significativo entre os determinados (substantivos, adjetivos e verbos). Temos então duas possíveis explicações para isso: primeiro, que a maior presença das variantes alveolares, palatais e aspirada nos determinantes consiste numa simplificação do processo de concordância nominal e verbal; segundo, que o apagamento consiste na eliminação da redundância de plural nos determinados (substantivo e adjetivos), visto que essa noção já é assinalada nos determinantes.

As variantes alveolares são favorecidas principalmente por numeral (.62), artigo (.59), preposição (.60) e pronome (.57). As variantes palatais são influenciadas principalmente por preposição (.62), artigo (.60), numeral (.58) e  conjunção (.64).  

Por sua vez a variante aspirada é influenciada por advérbio (.79), pronome (.69), artigo (.58), numeral (.50) e conjunção (.84). Aqui a forma “mas” apresentou-se como a forma mais freqüente, e o /s/ aspira mais quando seguido de consoante nasal:

(19)...eu gostu ma[h] num é muitu... “eu gosto mas não é muito”

Deste modo, é interessante observar que, segundo nossas análises,  o que conserva a presença da aspiração é a consciência que a pessoa tem da existência de um elemento pós-vocálico e da carga informativa que esse elemento possui; de outro modo, o apagamento da marca de plural ou da concordância nominal e verbal consiste na perda da consciência dessa carga informativa que o elemento pós-vocálico possui.

Portanto, como se poder observar, artigos, pronomes, numerais, preposições são mais significativas para as ocorrências das variantes alveolares, palatais e a aspirada. Quanto ao apagamento, são favorecidos pelos determinados, ou seja, os verbos (.76), substantivos (.69) e adjetivos (.65). Desse modo, verbos, substantivos, adjetivos são classes morfológicas que favorecem o apagamento do /s/ pós-vocálico. Uma observação importante é que o advérbio apresentou um peso relativo (.79) para a variante aspirada, e (.56) para a variantes palatais. Duas formas ocorrem com maior freqüência: a forma “mesmo”, cuja realização maior é “mehmo”, que favorece a variante aspirada, e a outra é a forma “depois”, que favorece a variante palatal. Essa explicação se faz necessária porque o favorecimento de palatais e aspirada pelos advérbios se deve principalmente a essas duas formas.

 

1.3- Caráter surdo ou sonoro do segmento seguinte vs posição da variante na palavra

A posição em que o /s/ ocorre na palavra também se mostrou importante. Nossa hipótese levantada foi consoante surda em juntura, consoante sonora em juntura, consoante surda interna à palavra, consoante sonora interna à palavra, vogais e pausa. Constatamos que a  variante aspirada é favorecida por consoante sonora em juntura e por consoante sonora interna à palavra, portanto, seguido de consoante sonora.O apagamento é favorecido por consoante surda em juntura e por consoante sonora em juntura, o que leva a supor que em  posição final o /s/ está mais sujeito a queda; as variantes alveolares são favorecidas quando seguidas por vogas e por pausa; as variantes palatais são favorecidas quandos seguidas por consoantes surdas internas à palavra e por  consoante sonora interna à palavra, o que demonstra que o contexto interno favorece  as variantes palatais.

Este grupo de fatores é composto por seis fatores:

(20)... muitu[s] católicu nem vão muitu na igreja... “muitos católicos nem vão muito na igreja”

(21)... chego num fim du me[Z] vamu dize... “chego num fim do mês vamos dizer”

(22)... a professora i[s]plica uma uma vezinha... “a professora explica uma uma vezinha”

(23)... só bem poquinhu me[z]mu... só bem pouquinho mesmo”

(24)... na hora fa[z] issu vai pra roça...  na hora faz isso vai para roça”

(25)... ma[S]...deu uma chuvinha aí isperandu paca... “mas ...deu uma chuvinha aí esprando paca”

TABELA 3 – Caráter surdo ou sonoro do segmento seguinte vs posição da variante na palavra

 

 

Alveolares

[s] [z]

Palatais

[S] [Z]

Aspiradas

[h]

Zero

(Ø)

 

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

total

Cons. surda em juntura

690

.41

438

.61

7

.46

121

.68

1256

Cons. sonora em juntura

242

.44

310

.44

39

.90

219

.82

710

Cons. surda interna

304

.37

643

.81

4

.54

7

.06

958

Cons. sonora interna

65

.33

12

.36

6

.96

1

.52

24

Vogal em juntura

757

.70

6

.24

15

.60

105

.54

883

Pausa

665

.61

167

.32

1

.12

128

.60

961

Nesta tabela estão representados dois grupos de fatores que se mostraram importantes para a realização ora de uma ora de outra variante. Observe que as alveolares são favorecidas quando seguidas por vogais na palavra seguinte (.70). Supõe-se que um dos fenômenos responsáveis pela manutenção da variantes alveolares nesses contextos é o que se chama de ressilabação, sobretudo porque nesses contextos a variante alveolar que ocorre é a variante sonora [z], isto é, o elemento pós-vocálico passa a ser o ataque da sílaba seguinte, mudando assim a estrutura silábica.

A pausa também favorece as alveolares (.61). Porém, lingüísticamente talvez isso não seja explicado, e sim socialmente. Veremos mais adiante.

A posição interna favorece as variantes palatais, e uma das implicações para a manutenção das variantes palatais nessa posição consiste no fato de se evitar a homonimia, ou seja, há palavras em que o /s/ constitui o elemento mínimo distintivo, os chamados pares mínimos: gasto/gato, testo/teto, basta/bata, etc., e sua eliminação causaria confusão.

Por outro lado, o critério sonoridade mostrou-se relevante para a variante aspirada,,presentou um peso relativo (.90) quando seguido de consoante sonora em juntura e (.96) quando seguida de consoante sonora interna à palavra.

O apagamento é favorecido pelo contexto final, tanto seguido por consoante surda (.68) quanto sonora (.82). Isso evidencia que em posição final o /s/ está mais exposto à supressão, sobretudo porque tal supressão em posição final não prejudica na comunicação.

 

1.4-      Modo de articulação do segmento seguinte à variante

Outra hipótese bastante siginificativa foi o modo de articulação do segmento seguinte ao fonema /s/, constatamos que as consoantes africadas [tS] / [dZ], fricativas e oclusivas favorecem as variantes palatais, as vogais favorecem as variantes alveolares; nasais e laterais favorecem a  variante aspirada; o zero é fovorecido também por vogais.

Este grupo de fatores é composto por sete fatores:

(26)... fiquei si[z]madu... “fiquei sismado”

(27)... a i[s]pingarda qui eu vindi quandu... “a espingarda que eu vendi quando”

(28)... tinha novi anus eu sô mai[Z] velhu... “tinha nove anos eu sô mais velho”

(29)... u[z] lugaris mais baixu... “os lugares mais baixos”

(30)... agora algun[Z] dizem qui eu queru aparecê... “agora alguns dizem que eu quero aparecer”

(31)... u de[S]tinu da genti é uma coisa... “o destino da gente é uma coisa”

(32)... nas coisa[h] aleia quere asaltá... “nas coisas alheia , querer assaltar”

TABELA 4 – Modo de articulação do segmento seguinte à variante

 

Alveolares

[s] [z]

Palatais

[S] [Z]

Aspiradas

[h]

Zero

(Ø)

 

 

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

total

Nasal

m, n, ­

204

.35

128

.39

182

.83

85

.68

599

Oclusivo

p,b,t,d,k,g

963

.44

1064

.65

34

.41

141

.40

2202

Constritiv

f, v, h, H

185

.51

75

.69

5

.25

32

.47

297

Lateral

l, ´, L

13

.53

15

.27

12

.78

18

.73

58

Africado

tS, dZ]

35

.30

258

.75

10

.19

49

.45

352

Vogal

a,e,i,o,u

775

.79

7

.15

17

.69

110

.61

909

Este grupo de fatores mostrou-se um dos mais significativos a interferir no processo de variação do /s/. Assim, as variantes alveolares são favorecidas quando seguidas de vogais (.79). A manutenção das variantes alveolares diante de vogal deve-se ao fenômeno da ressilabação, já comentodo aqui. As variantes palatais são favorecidas pelas consoantes africadas(.75), constritivas (.69) e oclusivas (.65). É interessante observar que o peso relativo da africada indica maior probabilidade de realização das variantes palatais nesses contextos, devendo-se isto ao fenômeno da assimilação, ou seja, a palatalização do [tS] provoca mudança de articulação do /s/, de alveolar para palatal [ s  =  S  >  tS ].

A variante aspirada é favorecida por consoante nasal (.83), laterais (.78) e vogais (.69). O apagamento também é favorecido por vogais (.61), constritivas (.73) e nasal (.68).

 

1.5-      Zona de articulação do seguimento seguinte à variante

A zona de articulção do segmento seguinte também foi outra hipótese lavantada por nós, assim constatamos que as consoantes alveolares favorecem as variantes palatais; consoantes velares e bilabiais  favorece as variantes alveolarares, a consoante glotal favorece a variante aspirada. De  outro modo, este grupo de fatores não se mostrou relevante para o zero fonético.

Este grupo de fatores é composto por sete fatores:

(33)... a[h] mulheri soltera... porque... “as mulheres solteiras...porque”

(34)... ma[S] tantu a mãi dela...  “mas tanto a mãe dela”

(35)... hoji nó[z] vivi separadu...  “hoje nós vive separado”

(36)... depoi[s] qui passei a morá... “depois que passei a morar”

(37)... ficamu[Z] nissu ai...  “ficamos nisso aí”

(38)... eli[z] riuniu as vezis us prefeitu... “eles reuniam às vezes os prefeitos”

(39)... eu tinha dua[z] ispingarda...  “eu tinha duas espingardas”

TABELA 5 – Zona de articulação do seguimento seguinte à variante

 

 

Alveolares

[s] [z]

Palatais

[S] [Z]

Aspiradas

[h]

Zero

(Ø)

 

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

total

Bilabial

p, b, m

493

.67

203

.36

108

.57

74

.48

878

Alveolar

t,d,tS,dZ,n,l

230

.20

1057

.80

130

.68

165

.49

1582

Labiodental

f, v

185

.63

71

.31

5

.52

35

.69

296

Velar

k, g

497

.74

204

.30

1

.18

53

.42

755

Palatal

´, ­

3

.29

5

.89

1

.47

2

.27

11

Glotal

h, H

31

.68

2

.49

1

.88

16

.51

50

Vogal

a,e, i, ,o, u

768

.65

7

.29

15

.39

108

.54

898

Observando a tabela acima, pode-se verificar que diante de consoante velar (.74),  bilabial (.67) e glotal (.68) as variantes alveolares têm maior probabilidade de realização.

As variantes palatais são favorecidas  por consoante palatal (.89) e também por consoante alveolar (.80). Os resultados aqui apresentados, em relação ao peso relativo da consoantes palatais, não são confiáveis devido á baixa freqüência das consoantes palatais, apenas 11 ocorrências, precisaríamos de um maior número de dodas para confiarmos nesses resultados. O mesmo ocorre com a variante aspirada diante de consoante glotal (.88). Por outro lado, o favorecimento das variantes palatais diante de consoantes alveolares deve-se sobretudo à assimilação que ocorre diante de [t, d, tS, dZ].

O apagamento é favorecido por consoante labiodental (.69), e por vogais (.54). É importante esclarecer que as vogais, de cordo com o ponto de articulação, não apresentaram variação segundo a regra de variação do programa  VARBRUL, o que acarretou a necessidade de amalgamar as vogais anteriores, posteriores e cental em apenas vogais, da mesma forma que fizemos com as vogais para o ponto de articulação.

 

2      – GRUPOS DE FATORES SOCIAIS

Três variáveis sociais também foram levantadas como hipóteses. A primeira foi a faixa etária, em que se pode observar um processo de mudança em curso, como veremos. Assim, a 3ª faixa etária (mais de 46 anos) demonstrou ter mais preferência pelas variantes palatais, que opostamente, tiveram uma freqüência muito baixa entre as pessoas da 1ª faixa etária (15-25). Por outro lado, as variantes alveolares se manifestam mais entre os jovens (1ª faixa etária). E os idosos apagam mais em relação aos mais  jovens; e as pessoas que estão entre 26 e 45 anos evitam mais o apagamento. 

A segunda variável social levantado como hipótese foi o nível de escolaridade. Aqui verificou-se que as pessoas sem escolaridade palatalizam mais. Seguidas a elas estão as pessoas com nível de escolaridade mais  alto, porém, há uma ligeiro equilíbrio entre as  pessoas com nível de escolaridade mais alto pela preferência entre palatais e alveolares. De outro modo, as pessoas SE (sem escolaridade) são as que mais apagam.

A terceira variável social levantada foi a renda, em que se constatou uma maior presença das variantes palatais e  apagamento entre as pessoas de renda baixa; e uma maior presença das variantes alveolares entre as pessoas de renda média. É importante observar que essas variáveis sociais demonstraram-se decisivas nos processos de variação, como será demonstrado adiante.

Deste modo, dentre os fatores sociais que influenciam na variação do /s/ pós-vocálico, foram considerados relevantes a faixa etária, o nível de escolaridade e a renda dos informantes.

 

2.1- Faixa etária

Este grupo de fatores é composto por três fatores:

·        1ª faixa etária (15-25 anos)

·        2ª faixa etária (26-45 anos)

·        3ª faixa etária (+ de 46 anos)

TABELA 6 -  Faixa etária

 

Alveolares

[s] [z]

Palatais

[S] [Z]

Aspiradas

[h]

Zero

(Ø)

 

 

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

total

15 - 25

847

.56

349

.40

88

.56

146

.51

1430

26 – 45

1114

.51

689

.52

109

.51

214

.46

2126

+ de 46

911

.44

678

.55

65

.44

221

.54

1875

De acordo com os resultados apresentados para as variantes alveolares, temos uma ordem no tempo aparente7 que nos mostra uma tendência entre os jovens de preferirem a realização alveolar (.56), e os idosos preferirem a realização palatal (.55). Os adultos estão entre as duas preferências. Isso demonstra que entre jovens e idosos há uma diferença considerável, e a segunda faixa etária caracteriza  um estado de transição de uma realização para outra.

Percebe-se, então, um processo de mudança de pronúncia, no sentido de que as variantes  alveolares estão se tornando a realização de prestígio, ao passo que a pronúncia palatal está deixando de ser uma realização de prestígio para se tornar estigmatizada, ultrapassada.

Em relação à variante aspirada, apresenta-se como inovação, visto que acompanha a mesma ordem das alveolares entre os jovens (.56). Os idosos resistem mais à inovação (.44), e os adultos ficam novamente em posição interrmediária (.51), o que evidencia um estágio de  transição se processando em tempo aparente.

O apagamento é mais presente entre a 3ª faixa etária (.54); a 2ª faixa etária apaga menos (.46) . Se pensarmos que as pessoas de 26-46 anos possuem uma vida socialmente mais ativa, verificaremos que essas pessoas possuem um maior compromisso com a língua, por isso o apagamento é menor entre eles. Para a 1ª faixa etária (jovens) e para a 3ª faixa etária (idosos) apresentam-se  como um tendência de simplificação da sílaba, que ocorre não apenas com o /s/ em potuguês, mas também o /r/, /l/ e /m/. Isso será discutido mais adiante.

 

2.2-  Nível de escolaridade

Este grupo de fatores é composto por três fatores:

·        Sem escolaridade (SE)

·        Com ensino fundamental completo(EF)

·        Com ensino médio completo (EM)

TABELA 7 – Escolaridade

 

Alveolares

[s] [z]

Palatais

[S] [Z]

Aspiradas

[h]

Zero

(Ø)

 

 

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

total

Sem escolaridade

713

.37

576

.52

114

.59

281

.69

1684

Ensino fundamental

851

.57

330

.40

68

.53

148

.54

1397

Ensino médio

1310

.55

810

.55

82

.42

152

.34

2354

A tabela acima esboça um dos grupo de fatores sociais mais significativos e decisivos para a ocorrência de uma variante ou outra. Se observarmos o fator SE há uma nítida ordem progressiva, no sentido alveolar (.37), palatal (.52), aspirada (.59) e apagamento (.69) [s → S → h → Ø]. Esta ordem nos sugere que as variantes  alveolares estão deixando de ser articuladas. Por outro lado, as variantes palatais e aspirada são estágios para se chegar ao total apagamento do /s/. Nossa hipótese basea-se na premissa de que quanto menor a escolaridade menor a interferência da língua escrita na língua falada, o que significa  que a língua escrita é o representante social da linguagem. É o que podemos chamar de pressão social, o que significa maior cuidado com o discurso, por isso  os falantes escolarizados conservam mais a variante conservadora. (.57) para os falantes de EF e (.55) para os falantes de EM.

O apagamento (.69) e a variante aspirada (.59) têm preferência entre os falantes SE; os falantes escolarizados evitam mais o apagamento (.34) e a variante aspirada (.42). Esses resultados evidenciam o que já foi falado um pouco acima, de que o prestígio da língua escrita tende a fazer com que os falantes conservem as variantes coservadoras. Quanto maior a escolaridade maior a consciência do falante de que língua é um importante indicador de prestígio social, o que exige maior atenção com a língua.

 

2.3- Renda

Este grupo de fatores é composto por dois fatores:

TABELA 8- RENDA

 

Alveolares

[s] [z]

Palatais

[S] [Z]

Aspiradas

[h]

Zero

(Ø)

 

 

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

aplic.

p. relat.

total

Baixa

1999

.47

1348

.53

185

.48

471

.53

4003

Média

873

.59

368

.42

77

.55

110

.43

1428

Segundo a tabela acima, a classe média tem preferência pelas variantes alveolares (.59), isso demonstra que diastraticamente8 as variantes alveolares são as variantes de maior  prestígio, visto que a classe que ocupa o topo de qualquer pirâmide social ocupa uma posição privilegiada e goza de prestígio. E por isso há um fenômeno marcante na história das sociedades, que consiste no fato de as classes inferiores atribuirem às classes mais altas o modelo de comportamento social que deve ser prestigiado e e por isso imitado. Um exemplo bem ilustrativo quanto ao uso dos aspectos lingüísticos de prestígio foi a chegada da família Real Portuguesa no Brasil. Os cariocas passaram a imitar o /s/ dos nobres, e logo o som chiante se difundiu na cidade como um índice de prestígio.

Por outro lado, as variantes palatais são mais significativas para a classe baixa, peso relativo (.53). O apagamento também é mais significativo para classe baixa (.53). Esse equilíbrio entre palatais e apagamento demonstra que essas variantes são diastraticamente estigmatizadas, ou seja, inferiorizadas.

 

ÍNDICE

 

 

 

             

INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS

Na análise do uso do /s/ tivemos em vista algumas regras de variação. Desse modo, nossa análise estudou  cada regra, e suas relações com os fatores lingüísticos e não-lingüísticos  que favorecem tais regras.

As regras a que nos referimos são as seguintes:

·        Regra 1 – Palatalização –  [s, z > S, Z]  (alveolar passa a palatal)

·        Regra 2 – Aspiração  - [s, z > h]  (alveolar passa a aspirada) ou [S, Z > h] (palatal passa a aspirada)

·        Regra 3 -  Apagamento -  [h > Ø] ( aspirada cai )

Passaremos agora a analisar cada regra, dicutindo os principais aspectos lingüísticos e não lingüísticos que favorecem cada uma delas. Vejamos então a primeira regra:

 

1 - PALATALIZAÇÃO

Observando os contextos lingüísticos verificou-se que a regra de palatalização se aplica sobretudo em função da assimilação ao contexto seguinte. De um modo geral, as consoantes surdas são as que mais favorecem a palatalização. Vejamos o quadro abaixo:

Tabela 9 – Dados da variante palatal

FATORES

TOTAL/APLIC.

PESO RELATIVO

FATORES

TOTAL/APLIC.

PESO RELATIVO

Tônico

1100 / 472

.65

Nasal

599 / 128

.39

Átono

4331 / 1244

.46

Oclusivo

2202 / 1064

.65

Verbo

804 / 320

.45

Constritivo

297 / 75

.69

Preposição

170 / 44

.62

Lateral

58 / 15

.27

Advérbio

691 / 216

.56

Africada

352 / 258

.75

Substantivo

2010 / 626

.44

Vogal

909 / 7

.15

Pronome

663 / 216

.54

Bilabial

878 / 203

.36

Artigo

351 / 101

.60

Alveolar

1582 / 1057

.80

Numeral

267 / 55

.58

Labiodental

296 / 71

.31

Conjunção

272 / 76

.64

Velar

755 / 204

.30

Adjetivo

204 / 62

.35

Palatal

11 / 5

.89

Consoante surda em juntura

1256 / 438

.61

Glotal

50 / 2

.49

Consoante sonora em juntura

710 / 310

.44

Vogal

898 / 7

.29

Consoante surda interna

958 / 643

.81

15-25 anos

1430 / 349

.40

Consoante sonora interna

24 / 12

.36

26-45 anos

2126 / 689

.52

Vogal em juntura

883 / 6

.24

+ de 46 anos

1875 / 678

.55

pausa

961 / 167

.32

Renda baixa

4003 / 1348

.53

S / escol.

1684 / 576

.52

Renda média

1428 / 368

.42

Ens.  fund.

1397/ 330

.40

 

 

 

Ens. médio

2354 / 810

.55

 

 

 

Quanto ao modo de articulação, as consoantes africadas [ tS e dZ ] são as que mais favorecem a palatalização do /s/. Aqui o processo de assimilação fica bem caracterizado, ao que tudo indica, a articulação do segmento seguinte (africado) contamina o /s/ alveolar, provocando a mudança de articulação para palatal. No entanto, quanto ao ponto de articulação, as consoantes palatais (´ e ­ ) são as que mais favorecem as variantes palatais, o que evidencia esse processo assimilatório, apesar de poucos dados. Em segundo lugar as consoantes alveolares também favorecem as variantes palatais, sobretudo as consoantes [t e d]. Defendemos a premissa de que as consoantes africadas estimularam a realização palatal diante de [t e d]. Ao que tudo indica a palatalização do /s/ surgiu a partir da assimilação das consoantes africadas, estas por sua vez, palatalizaram-se a partir da assimilação à vogal anterior, alta /i/.9 Dinah Callou & Yonne Leite (1999, p.98) observam que:

As mudanças  fônicas são lentas e graduais e têm sua origem num sujeito falante, num grupo social, etc., até que se generalizam e se estendem a toda a comunidade, embora só se generalizem aquelas que são admitidas pela língua em sua exigência de intercomunicação

Essa hipótese foi originada a partir da observação que empreendemos sobre o dialeto nordestino, para ser mais preciso o Cearense, predominantemente alveolar, em que as consoantes [t e d] não se palatalizam diante de /i/,10 e, conseqüentemente, não há  a palatalização do /s/ pós-vocálico.

Outros fatores lingüísticos também se mostraram importantes na manutenção das variantes alveolares, da mesma forma que para a manutenção das variantes palatais. Um dos fatores importantes para a manutenção é a sílaba tônica. Em nossas análises chegamos a conclusão  de que a sílaba tônica não interfere no processo de mudança do [ s  >  S ]. O estabelecimento de uma variante ou outa parece ter outra influência que não esta. O contexto tônico ou átono é importante quando a mudança que ocorre é no sentido [ s > h > Ø ] ou no sentido [ S > h > Ø ].O contexto tônico apenas é importante para a manutenção do [s] ou do [S] quando uma das duas realizações já estiverem cristalizadas na fala do informante.

Do mesmo modo que o grupo de fatores tonicidade, o grupo de fatores classe morfológica também se mostrou importante para a manutenção do [S] ou do [s]. A mudança [ s > S ], ao que parece, também não é influenciada pela classe morfológica. Por outro lado, a mudança [ s > Ø ] e [ S > Ø] sofre infuência deste grupo de fatores. É intereçante observar que as classes morfológicas que mais mantiveram a presença da variante palatal, e ,evidentimente, da alveolar, são: preposisão, artigo, numeral, pronome e conjunção. Aqui verificaremos um fenômeno bastante marcado na linguagem coloquial.

            (40)...meu[s] istudu...pelu menu[s] terminá... “meus estudos...pelo menos terminar”

            (41)...a[s] crianca di hoji im dia elah num...  “as crianças de hoje em dia elas não”

            (42)...eli[S] ficavu aqui futivamente...   “eles ficavam aqui furtivamente”

A explicação evidente para a manutenção de palatais e alveolares é um tendência muito forte na linguagem popular, a eliminação de redundância de plural ou eliminação da concordância nominal e verbal vinda nos determinados (verbo, substantivo e adjetivo) como se observa nos exemplos acima. Uma observação importante que se faz é que a supressão do morfema de plural ou das desinências verbais não interferem na comunicação, pois a noção gramatical de plural ou de pessoa está contido no determinante, e isso é suficiente para haver comunicação.

Quanto aos grupos de fatores sociais, um dado importante observado por nós foi que os mais velhos palatalizam mais que os jovens, estes por sua vez realizam mais a pronúncia alveolar. Este acontecimento pode ter uma explicação histórica. Como já foi mensionado no início, Bragança foi colonizada no século XVIII por 30 casais das ilhas dos Açores. Citando um exemplo dado por Monteiro (2000, p. 123) a palatalização já ocorria  no português lusitano no século XVIII, e foi introduzida no Brasil com a vinda de famílias portuguesas para cá. Por exemplo, a palatalização, que é muito forte no Rio de Janeiro, foi introduzida com a chegada da Família Real no início do século XIX. Portanto, é provável que a palatalização entre os mais velhos possa ser herança portuguesa. Porém, tal pronúncia está sendo substituída pela pronúncia aleolar.

Observamos então que os jovens pronunciam mais a articulação conservadora (alveolar). Uma das explicações possíveis para isso consiste no fato de Bragança ser uma cidade situada na região de fronteira com a região nordestina, de pronúncia alveolar. A atual formação populacional de Bragança é composta por imigrantes vindos em sua grande maioria do Nordeste brasileiro, sobretudo do Estado do Maranhão, e conta hoje com 120.641 habitantes11 aproximadamente. Outro suposição é a forte atividade econômica que a região bragantina tem  hoje com o nordeste do Brasil, principalmente a atividade pesqueira. Então, o que se observa é que devido a esse forte contato com o dialeto nordestino, está ocorrendo no município de Bragança uma substituição da pronúncia palatal pela pronúncia alveolar. Se  observarmos o comportamento lingüístico dos informantes da 2ª faixa etária, que estão situados, equilibradamente, entre as duas pronúncias, é de se supor um estado de mudança em curso no sentido [ S → s ]. Portanto, ao que tudo indica variantes alveolares realizam-se como articulações de prestígio, e por isso está forçando uma mudança de comportamento lingüístico no sentido favorável para a articulação consevadora ( alveolare). É o que Labov (apud Mollica, 1998, p. 121) chama de processo de correção explícito, em que forças sociais exercem pressão sobre as formas lingüísticas a ponto de afetarem o sistema lingüístico como um todo. Mollica observa que a “atribuição de prestígio pertence à dinâmica das relações sociais e é no estágio de propagação de uma mudança lingüística que as variantes em competição recebem um determinado valor social”.

Do ponto de vista educacional, as pessoas SE realizam mais a variante palatal que a variante alveolar, já as pessoas com EM preferem variantes alveolares, e as pessoas de escolaridade mais alta estão empatados tecnicamente quanto as duas pronúncias. Esse equilíbrio comprova a dificuldade em saber qual das duas variantes é a de prestígio, uma vez que as pessoas de escolaridade mais alta têm uma vida socialmente mais ativa. Mas, como já foi dito, a variante alveolar é a que mais se sobressai, e isso é comprovado com o grupo de fatores renda, em que a classe média prefere a realização alveolar e a classe baixa  tem preferência pela realização palatal.

De um modo geral, a articulação palatal é um fenômeno que ocorre originalmente por assimilação às consoantes palatalizadas [ tS e dZ ], e por extenção realizando-se diante de  [t e d],  e assim, generalizando-se principalmente diante de  consoantes surdas. Nossa hipótese basea-se na observação do dialeto nordestino, em que não ocorre as consoantes palatalizadas, favorecendo uma pronúncia predominantemente alveolar.

 

2  ASPIRAÇÃO

A regra de aspiração do /s/ pós-vocálico é um dos fenômenos mais interssantes que ocorre em língua portuguesa, fenômeno esse que ocorre também na língua espanhola. Coerentemente com o que dissemos anteriormente a respeito da regra de  palatalização, defendemos o presuposto de que a regra de aspiração consiste em um estágio por que passa o /s/ no sentido de posteriorização, para culminar então com  o queda. Esse fenômeno de posteriorização e queda também ocorre com outros elementos pós-vocálicos em língua portuguesa: /r/, /l/, /m/.12 A posteriorização consiste em estágios, em que a fase final é o apagamento. Mas por motivo de esclarecimento é necessário dizer que a aspiração origina-se diretamente da alveolar, se o falante tiver cristalizado em modo de falar a pronúncia alveolar, ou origina-se da articulação palatal, se o falante tiver uma pronúncia palatal. Defendemos a  premissa de que a palatalização é um processo assimilatório acarretado por outro processo assimilatório,13 que é independente do processo de posteriorização para culminar com o apagamento, defendido para a variante aspirada. Mais uma vez recorremos ao dialeto nordestino, em que dificilmente ocorre a variante palatal, para dizermos que a aspiração é um estágio independente da palatalização, ou seja, para se  chegar à aspiração não se passa pela palatalização. É o que podemos também comprovar historicamente com o fenômeno de aspiração do espanhol, que não passou por esse processo de palatalização.

No que diz respeito aos aspectos lingüísticos os contextos sonoros são os que mais favorecem a aspiração, sobretudo consoantes nasais, laterais e vogais. É intereçante observar que o ponto de articulação da variante aspirada é velar, às vezes percebece-se como glotal, em que se aproxima muito da consoante constritiva glotal /r/. Callou & Leite (1999, p. 78) obsevam que:

“Há uma pequena diferença entre consoantes líquidas e as articulações vocálicas, traduzidas em traços comuns, determina um contraste muito tênue entre as duas classes de sons e no caso da vibrante a mudança para constritiva se explicaria por um processo de intensificação ou reforço do catáter consonântico.” 

É o que podemos perceber também na mudança de articulação do [s] > [h], a aspirada é uma resistência à queda marcado por esse reforço do caráter consonântica. Quanto ao favorecimento por parte das vogais, é devido a  um comportamento comum da sílaba que se chama ressilabação14, e que ocorre em varias línguas. Ou seja, segmentos pós-vocálicos quando seguidos por vogais tendem  a se tornarem pré-vocálico, afetando assim a estrutura silábica. Isso acontece não apenas com o /s/, mas também  com o  /r/, /l/ e /m/.15

Assim, observemos o quadro abaixo:

Quadro 10 – dados da variante aspirada

FATORES

TOTAL/APLIC.

PESO RELATIVO

FATORES

TOTAL/APLIC.

PESO RELATIVO

Tônico

1100 / 102

.53

Nasal          

599 / 182

.83

Átono

4331/ 160

.49

Oclusivo

2202 / 34

.41

Verbo

804 / 10

.33

Constritivo

297 / 5

.25

Preposição

170 / 6

.47

Lateral

58 / 12

.78

Advérbio

691 / 112

.79

Africada

352 / 10

.19

Substantivo

2010 / 31

.35

Vogal

909 / 17

.69

Pronome

661 / 40

.69

Bilabial

878 / 108

.57

Artigo

351 / 17

.58

Alveolar

1582 / 130

.68

Numeral

267 / 6

.50

Labiodental

296 / 5

.52

Conjunção

272 / 38

.84

Velar

755 / 1

.18

Adjetivo

204 / 2

.27

Palatal

11 / 1

.47

Consoante surda em juntura

1256 / 7

.46

Glotal

50 / 1

.88

Consoante sonora em juntura

710 / 39

.90

Vogal

898 / 15

.39

Consoante surda interna

958 / 4

.54

15-25 anos

1430 / 88

.56

Consoante sonora interna

24 / 6

.96

26-45 anos

2126 / 109

.51

Vogal em juntura

883 / 15

.60

+ de 46 anos

1875 / 65

.44

pausa

961 / 1

.12

Renda baixa

4003 / 186

.48

S/ escol.

1684 / 114

.59

Renda média

1428 / 77

.55

Ens. fund.

1397 / 68

.53

 

 

 

Ens. médio

2354 / 82

.42

 

 

 

Socialmente a variante aspirada comporta-se como inovadora e ao mesmo tempo estigmatizada. Inovadora porque  são os jovens que mais preferem a variante aspirada; e estigmatizada porque os falantes sem escolaridade são os que mais as realizam. Do ponto de vista  diageracional,16 a aspiração comporta-se como inovação, uma vez que os mais jovens as realizam com maior freqüência. Os informantes de média idade as realizam menos que os jovens, e os mais velhos resistem mais à aspiração.

O grau de escolaridade revela-nos a pressão que a língua escrita exerce sobre o vernáculo. Falantes com maior grau de escolaridade resistem mais à inovação, visto que esses falantes sofrem maior pressão da língua escrita. Ou seja, segundo Mollica (1998)

os agentes propulsores à mudança localizam-se fora da escola, e a escola age como refreador das inovações, mas cumpre a outros espaços tal finalidade e nem sempre é o principal fator inibidor, os valores sociais imprimem-se fora e dentro da escola”.

Por outro lado, quanto menor a escolaridade menor a influência do língua escrita no vernáculo, ou seja, menor a atenção dada à língua.

 

3   APAGAMENTO

A regra de apagamento, segundo a hipótese levantada por nós, consiste no estágio final de enfraquecimento do /s/ pós-vocálico. O apagamento então origina-se de um estágio anterior que é a aspiração ( s,z  >  h  >  Ø ) ou ( S,Z  >  h  >  Ø ).

O apagamento do /s/ é um fenômeno que ocorre com outras consoantes pós-vocálicas em língua portuguesa. O apagamento inicia-se com a posteriorização das consoantes, para culminar com  a queda. É o que ocorre com o /l/, que  de consoante alveolar posterioriza-se e transforma-se em vogal /u/ , chegando a cair. Acontece também com /r/ pós-vocálico, que em alguns dialetos , como o gaúcho, realiza-se como  alveolar vibrante, já em outros, como o paraense, realiza-se como glotal, alternando-se com o apagamento.17 O /s/ passa pelo mesmo fenômeno, posterioriza-se passando por um estágio, que é  aspiração, para então cair: ( s, z  >  h  >  Ø )  ou  ( S, Z  >  h  >  Ø ).

Quadro 11 – dados da variante zero

FATORES

TOTAL/APLIC.

PESO RELATIVO

FATORES

TOTAL/APLIC.

PESO RELATIVO

Tônico

1100 / 22

.13

Nasal

599 / 85

.68

Átono

4331 / 559

.62

Oclusivo

2202 / 141

.40

Verdo

804 / 113

.76

Constritivo

297 / 32

.47

Preposição

170 / 10

.25

Lateral

58 / 18

.73

Advérbio

691 / 31

.30

Africada

352 / 49

.45

substantivo

2010 / 334

.69

Vogal

909 / 110

61

Pronome

661 / 28

.24

Bilabial

878 / 74

.48

Artigo

351 / 20

.24

Alveolar

1582 / 165

.49

Numeral

267 / 8

17

Labiodental

296 / 35

.69

Conjunção

272 / 15

.26

Velar

755 / 53

.42

Adjetivo

204 / 22

.65

Palatal

11 / 2

.27

Consoante surda em juntura

1256 / 121

.68

Glotal

50 / 16

.51

Consoante sonora em juntura

710 / 219

.82

Vogal

898 / 108

.54

Consoante surda interna

958 / 7

.06

15-25 anos

1431 / 146

.51

Consoante sonora interna

24 / 1

.52

26-45 anos

2128 / 214

.46

Vogal em juntura

883 / 105

.54

+ de 46 anos

1876 / 221

54

 pausa

961 / 128

.60

Renda baixa

4003/ 471

.53

S. escol.

1684 / 281

.69

Renda média

1428 / 110

.43

Ens. fund.

1397 / 148

.54

 

 

 

Ens. médio

2354 / 152

.34

 

 

 

O apagamento pode seguir dois princípios. O primeiro princípio consiste na simplificação de sílabas complexas (CVC) à sílabas simples (CV). Segundo Helena Gryner & Alzira Macedo (2000, p. 46) da mesma forma que a manutenção da variante alveolar diante de vogais transforma a seqüência CVC-V para CV-CV (três anus > trêZanus), ou seja, o segmento pós-vocálico passa a pré-vocálico. O apagamento também segue esse princípio de simplifacação da sílaba, (CVC-V para CV-V), ou diante de pausa CVC para CV (nós temuØ....  >  nós temos...).

De um modo geral, o apagamento é favorecido por contexto sonoro e por contexto átono, sobretudo seguido por vogais, obedecendo ao fenômeno descrito acima.

O segundo princípio pode ser explicado por outra tendência existente em língua portuguesa, já citado anteriomente, que consiste na eliminação da redundância de plural, ou seja, do morfema de plural. Isso porque  a eliminação do /s/ não altera a carga informativa da palvra em que é suprimido.          Do ponto de vista social, confirmando a explicação dada para a aspiração, os falantes de nível de escolaridade mais baixo são os que mais apagam, evidenciando essa menor procupação com o discurso, ao contrário dos falantes de maior escolaridade que apagam menos. A pressão social impõe ao falante um maior compromisso com a língua, somada com a interferência da língua escrita. Quanto mais consciência o falante tiver dos aspectos da língua que fala, maior atenção presta ao seu discurso.

Com relação a classe social, falantes de renda baixa são os que mais apagam. É interessante notar que quase sempre renda e escolaridade andam juntas, geralmente pessoas de baixa renda possui baixa escolaridade, ao contrário das pessoas de renda mais elavada que possuem grau de escolaridade mais alto.

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PUBLICAÇÕES

Indicar as publicações originadas do projeto, acrescentando cópias das mesmas, considerando os trabalhos publicados  e/ou aceitos para publicação, livros, capítulos de livros, artigos em periódicos nacionais e internacionais, resumos em congressos,  seminário de iniciação científica etc. Indicar claramente entre os autores dos trabalhos, quando for o caso, os bolsistas formais de IC.

Trabalho apresentado no XI seminário de iniciação científica da UFPa pelo bolsista Arlon Martins.

Título : A PRONÚNCIA DO FONEMA /S/ E SUAS VARIAÇÕES NO MUNICÍPIO DE BRAGANÇA.

Resumo

Este trabalho está vinculado ao projeto Variação e Mudança lingüística no Estado do Pará e tem como objetivo estudar os aspectos variacionais  do fonema  /s/ em posição posvocálica, levando-se em conta fatores internos e externos que acarretam a mudança lingüística. Entre os fatores internos, podem-se enumerar os ambientes fonéticos em que o fonema /s/ ocorre, e entre os fatores externos, podem-se enumerar as variáveis sociais: escolaridade, faixa etária e renda. A metodologia usada para desenvolver esse estudo vai desde a transcrição fonética até o tratamento estatístico feito  por um programa computacional chamado Varbrul. Para a transcrição  fonética foi adotado pelo projeto a  tabela com os símbolos fonéticos do IPA (alfabeto fonético internacional). Esses são os passos percorridos na classificação e codificação  dos dados no sentido de agilizar as análises descritivas.  

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CONCLUSÃO

Se fizermos uma observação sobre as ocorrências das variantes , verificaremos que a articulação alveolar é a de maior freqüência, e em segundo lugar a articulação palatal. A proposta de nosso trabalho foi estudar a realização alveolar (tanto surda quanto sonora), palatal ( tanto surda quanto sonora), aspirada e o apagamento. Porém, faz-se necessário fazer algumas considerações sobre a articulação sonora da variante alveolar e da variante palatal. Desse modo, obsevou-se que a articulação sonora de ambas as variantes está sujeita a uma regra de assimilação: o segmento fônico se realizará como sonoro diante segmento sonoro (vogal ou consoante), e surdo diante de segmento  surda ou pausa.

Portanto, a sonorização é um processo que está na dinâmica da fala, é determinada por ambientes fonéticos, e não é marcada por variáveis sociais. A sonorização não é sinal de alta ou baixa escolaridade, e não quer dizer também que o falante que produza a articulação sonora pertença a classe A ou a classe B.

Assim, a análise dos dados mostrou-nos que o município de Bragança possui uma pronúncia predominantemente alveolar, ou seja, conservadora. A articulação alveolar encontra maior preferência entre os jovens, e a impressão que tivemos é que em alguns a pronúncia alveolar parecia um tanto quanto artificial, uma correção explícita, uma vez que também articulavam a pronúncia palatal. Curiosamente o comportamento desses falantes poderia ter sido influenciado pela presença do pesquisador e seus equipamentos, o gravador no caso. Por outro lado, esse comportamento reflete o prestígio que a articulação alveolar possui moradores do município.

Desse modo, analisando as preferências pelas articulações palatal e alveolar, pode-se inferir, baseando-se no tempo aparente, que a pronúncia palatal está sendo substituída pela pronúncia alveolar, uma vez que são os mais velhos quem articula mais a pronúncia palatal, opostamente aos mais jovens que preferem a articulação alveolar. Supostamente essa pronúncia alveolar está sendo implantada em Bragança devido aos contados que a cidade possui com regiões de pronúncia alveolar como o nordeste do Brasil. Evidencia-se então que socialmente a pronúncia alveolar está suplantando a pronúncia palatal, numa verdadeira tentativa de preservar uma forma de falar considerada elegante e correta. Trata-se de um processo de comportamento lingüístico influenciado pelo fator prestígio, uma vez que os resultados da variável social renda mostra-nos que a articulação alveolar tem grande aceitação entre a classe média. Ou seja, falar como aqueles que gozam de prestígio é uma forma de tentar se igualar socialmente, estar em uniformidade com a elite.

No que diz respeito à pronúncia palatal, nossa hipótese mais provável para sua generalização nos contextos surdos, é que ela tenha se originado diante de consoantes africadas [ tS e dZ ] por assimilação em algum estágio de evolução da língua, e por analogia ter se realizado diante de consoantes alveolodentais [ t e d ], e assim ter se generalizado como forma articulatória palatal em substituição à pronúncia alveolar [s]. Socialmente a pronúncia palatal aparece como estigmatizada em Bragança,  um a vez que tem maior preferência entre os idosos.

A variante aspirada aparece como inovadora, pois tem preferência maior entre os jovens. Contudo, entendemos que a aspiração é um estágio do enfraquecimento do /s/ pós-vocálico para culminar com a queda. Um dos aspectos que influenciam na realização da variante aspirada é o fator traço consonântico, próprio das consoantes. No caso do /s/ a constrição é traço determinante, e é essa constrição que ainda persiste quando se articula a variante aspirada. Ou seja, o falante ainda tem consciência da existência de uma consoante pós-vocálica, e por isso a aspiração realize-se  como um reforço desse traço consonântico.

Quando o falante não tem mais consciência da existência de uma consoante pós-vocálica chega-se ao apagamento. O apagamento consiste então no estágio final do enfraquecimento do /s/ pós-vocálico, seguindo assim, uma tendência de simplificação silábica que ocorre em língua portuguesa, que é a eliminação de consoantes  pós-vocálicas.

De um modo geral, a pronúncia do /s/ pós-vocálico de Bragança tem uma forte tendência conservadora (alveolar), que está substituindo a palatal. Assim, é possível observar então um processo de mudança em curso, no sentido (S  →  s). Ao que tudo indica essa mudança está se processando devido a fatores sociais e não lingüístico, a realização alveolar entre os jovens configura-se como uma espécie de demarcação do espaço social, intencionalmente cultivado como projeção social.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALLOU, Dinah; LEITE, Yonne. Iniciação à fonética e à fonologia. 6. ed. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar, 1999 (COLEÇÃO LETRAS).

BISOL, Leda (org.). Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. Porto alegre: EDIPUCRS, 1996.

GRYNER, Helena; MACEDO, Alzira Verthein Tavares de. A pronúncia do –S pós-vocálico na região de Cordeiro- RJ. In: MOLLICA, Maria Cecília; MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). Análises lingüísticas: a contribuição de Alzira Macedo. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras / UFRJ, Departamento de Lingüística e Filologia, Programa de Pós-Graduação em Lingüística, 2000. p. 26-51.

MOLLICA, Maria Cecília. Influência da fala na alfabetização. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1998.

MONTEIRO, José Lemos. Para entender LABOV. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.

______. Fontes bibiográficas para o estudo do falar Cearense . Fortaleza, 1999. Disponível em <http://www.geocities.com/Paris/Cathedral/1036 >Acesso em: 29 jun. 2001.

SHERRER,  Maria Marta Pereira. Introdução ao Pacote VARBRUL para microcomputadores. Brasília: UNB, 1996.

TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolingüística. 5. ed. São Paulo: Editora Ática, 1997 (Série Princípios).

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PARECER DO ORIENTADOR

Manifestação do orientador sobre o desenvolvimento das atividades  dos alunos e justificativa do pedido de renovação, se for o caso.  

O projeto do bolsista Arlon Martins sobre “A pronúncia do Fonema /s/ e suas Variações no português do Município de Bragança” foi concluído com um rigor científico de alta qualidade. A metodologia seguida nesse trabalho reflete uma grande competência do autor, Arlon Martins, em lidar com questões práticas de transcrição e análise estatística.

Os resultados apresentados demonstram também a qualidade que o bolsista tem em argumentar com exemplos e tabelas, seguindo a tradição da metodologia variacionista.

Arlon Martins, aluno dedicado, bolsista excelente e pesquisador de alto nível, merece todo o apoio de uma  grande instituição federal como o da Universidade Federal do Pará e do CNPq. Devo acrescentar que eu tenho e terei o maior prazer de continuar colaborando na formação de futuros grandes pesquisadores como Arlon Martins.

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1 Esta Pesquisa está inserida em um Projeto maior, “O Atlas Geo-Sociolingüístico do Pará”

2 Atlas lingüístico da Paraíba ( Maria do Socorro S. Aragão e Cleusa Palmeira B. de Menezes, 1984), Atlas Lingüístico de Sergipe (Carlota da Sdilveira Ferreira et al., 1987), Atlas Lingüístico do Paraná (Vandercy de Andrade Aguilera, 1994), Atlas Prévio dos Falares Baianos (Nelson Rossi, 1963) e Esboço de um Atlas Lingüístico de Minas Gerais (José Ribeiro, Mário Zágari et al., 1977).

3 O Alfabeto Fonético Internacional utilizado pela pojeto segue em anexo.

4 Varbrul é um conjunto de  programas computacionais que faz análises estatísticas de regras variáveis, mostrando os pesos relativos de cada variável. O programa permite selecionar as variáveis mais significantes, facilitando, assim, a interpretação dos dados.

5 Por Vernáculo entende-se o estilo em que é mínima a atenção prestada ao controle do discurso, isto é, a fala mais espontânea possível. Outra definição entende ser o vernáculo a primeira forma de linguagem adquirida, plenamente aprendida e empregada apenas por falantes de um mesmo grupo (Labov apud Monteiro, 2000).

6 Para entender o funcionamento dos programas de variação do Varbrul consultar Marta Sherrer (1993)

7 O tempo aparente refere-se ao padrão de distribuição comportamento lingüístico através de vários grupos etários num determinado momento do tempo. Ou seja, se o uso da variante inovadora for mais freqüente entre os jovens,decrescendo em relação à idade dos grupos mais idosos, tudo indica que se trata de uma situação de mudança em progresso (Monteiro, 2000, p.132)

8 Diastrática é a variação lingüística  que existe entre as camadas sociais: nível culto, nível popular, língua padrão. Etc. (CALLOU & LEITE, 1999).

9 Cf.  Leda Bisol (1996, p. 233).

10 Monteiro, 1999

11 Finte: IBGE, Contagem da população 1996.

12 Cf. Lopez  apud Leda Bisol, 1996, p. 209-219.

13 Veja a análise da variante palatal.

14 Cf. Leda Bisol, 1999, p. 231.

15 Ibdem.

16 Diageracional é um expressão da sociolingüística para se referir à variação lingüística entre as faixas etárias.

17 Cf. Leda Bisol, 1996, p. 218.

 

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